Desde o início do século XX, havia nessa esquina um palacete, testemunho de uma época de esplendor de São Paulo, e época dos barões do café.
Era um palacete de dois pisos e um sótão, pátio interno e instalações de apoio. Tinha escadas de mármore, vitrais, espelhos importados, portas e janelas de pinho de riga e até um elevador. Pertencia a um senhor que diziam ser inglês, Jorge Street. Na verdade, era brasileiro, nascido no Rio e tendo estudado no exterior.
Em 1934, quando foi fundada a Universidade de São Paulo, por Armando Salles de Oliveira, amigo de Jorge Street, o palacete foi comprado, segundo consta, para lá se instalar a área administrativa da Universidade. Uma das faculdades da Universidade, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (atual Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), da qual era diretor o Prof. Antonio de Almeida Prado, tinha os seus vários departamentos dispersos por vários prédios. A História Natural ocupava uma parte do prédio da Faculdade de Medicina.
Depois de três anos de convivência pacífica no prédio da Faculdade de Medicina, em 1937 pretendeu-se construir mais um andar no prédio da Faculdade de Medicina para criar espaço para o ensino e pesquisa na área de Biologia. Protestaram os estudantes de Medicina e, com justa razão, impediram a construção, que iria alterar profundamente o projeto arquitetônico do prédio (episódio conhecido como a "Derrubada da Torre de Filosofia", no depoimento de Carlos da Silva Lacaz).
Os vários departamentos da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras começaram a ser transferidos para outros prédios e para o palacete de Jorge Street. O palacete da Glete foi a História Natural, que englobava os cursos de Geologia e Biologia.
Na minha época, 1948 a 1951, no andar térreo funcionava o Departamento de Mineralogia e Geologia, incluindo Petrografia, com seu museu e laboratórios. No 1º andar ficava a Zoologia e Fisiologia Animal; no "sótão" ficava a Biologia. Nas instalações de apoio, devidamente adaptadas, ficavam a Botânica, Fisiologia Vegetal, Geologia e Paleontologia.
Com a ida da parte da Biologia para a Cidade Universitária e a instalação do 1º Curso de Geologia do Brasil em 1957, o prédio ficou só para a Geologia. De 1957 a 1969 (12 anos), passaram pelo prédio 426 geólogos, conhecidos como a Turma da Glete. De 37 a 69 (32 anos), não sei quantos da História Natural passaram, mas certamente foram muito mais, embora as turmas fossem pequenas.
A Química também funcionava na Glete, mas num prédio construído depois, sem fazer parte do palacete. Nos porões do palacete sim é que funcionava parte do curso de Psicologia Experimental da FFCLUSP.
Em 1970, todo o grupo Biologia e Geologia (agora Biociência e Geociência) estava na Cidade Universitária. Nesse ano, o palacete da Glete foi inexplicavelmente demolido. Sobrou apenas a Figueira, uma enorme árvore, mesmo assim porque fora tombada pelo Estado, na época do governador Orestes Quércia. O decreto 30.443 de 20 de setembro de 1989, no seu artigo 12, diz: "São imunes de corte em razão da localização e beleza, as árvores que compõe agrupamento de vegetação nas seguintes ruas e lote: Rua Guaianazes nº 1112, Rua Guaianazes 1149, Rua Guaianazes no trecho entre a Alameda Nothmann e Alameda Glete. ".
E essa Figueira está lá até hoje, mas é preciso atenção constante para que algum "acidente" não a destrua.
O que deveria ser uma praça, para valorizar seu espaço, é um estacionamento. Não se sabe a quem pertence o terreno, mas quem ama a velha Figueira, palco da convivência de quase mil alunos durante pelo menos 32 anos (de 1937 a 1969), vai batalhar para que, pelo menos, parte dele seja doado ou tombado e aí os muitos e muitos biólogos e geólogos que sob sua copa estudaram, conviveram, namoraram e tiveram parte de suas vidas ligada a ela, possam ter o seu ponto de referência e de encontro.
Com medo do que possa acontecer com a querida Figueira da Glete, o Grupo Figueira da Glete conseguiu uma muda que está muito bem de saúde neste janeiro de 2003. Deverá ser plantada no Instituto de Geociência da USP no próximo dia do Geólogo (maio de 2003).
Isto é São Paulo desconhecido.
Texto escrito por : Neuza Guerreiro de Carvalho – em São Paulo, 17 de janeiro de 2003