Para nós, românticos, o ato de recordar pode ser bem mais gososo que o momento relembrado, por mais feliz que este tenha sido. A recordação é um "flashback" remasterizado, aparado em eventuais arestas e mixado de forma a valorizar nossa importância. E se algum desgaste houve na cena viva, ele não tem que necessariamente estar presente na reprisada. Por que esse divagar, essa filosofia botequinesca "numa hora destas"? Bem, se o Senhor não está lembrado, dá licença de eu contar: eu e um Leitor (Você?) iniciamos há dois capítulos um périplo sonial, singrando mares memoráveis e aportando a cada impulso da paixão, dona do leme. De um jeito mais direto: iniciamos um passeio pelos salões de dança do Centro Histórico de São Paulo, Cidade. E trouxemos aos braços os mais lindos pares, com os quais compartilhamos os mais belos sons, das mais incríveis orquestras. E hoje, poucas horas depois, arrebentando de Felicidade, eis-nos aqui, revigorados pelo prazer, prontos para recomeçar. É, recordar pode ser bem mais gososo que o momento relembrado! Então, por que esperar mais? Há tanto a ver! Não vou descer à indiscrição e lhe perguntar como terminou sua noite, ontem, companheiro. Até onde vi, enquanto na AABB, Você deslizava inflado pela Felicidade. Seu sorriso parecia forjado a ferro ou cinzelado. Vi quando, depois de dançar, no embalo de suas lembranças, escolheu uma – a mais bela, creio – e se foi. Flutuava. E agora já o vejo aqui, puro entusiasmo, olhar pedinte que parece exclamar "Vamos!", sem dúvida já vivendo o prazer que está por vir. Entusiasmo contagiante. Então, vamos! Onde? Neste retorno às décadas de 50, 60 e 70, dispostos a dançar, não poderíamos de modo algum deixar de picotar cartões! Estou falando de uma modalidade de entretenimento que já se aproxima de seu estertor, portanto se quisermos saboreá-lo, temos que ir já, antes que só nos restem saudades. Saudades do OK, do Avenida e do Chuá, nomes estes, – todos eles – completados por um chamativo Danças. Como se parecem, nossa escolha pode se dar ao acaso, ou melhor: como o Avenida Danças será o último a tombar e até em homenagem a sua tenacidade, à ele! Essas "garotas", algumas delas já na sexta dezena de suas idades, com seus vestidos "rasgados" e seus sorrisos nem tanto, disputam seus pares no olhar, muitas vezes arriscando uma "piscada" e até, mais atrevidas, um beijinho discretamente atirado. Exímias bailarinas em sua grande maioria, se contentam até em ser apenas arrastadas pelo salão. Só reclamam de pisadelas; afinal vivem de seus pés, por assim dizer. Em qualquer dos "dancings" dificilmente Você encontrará "brotinhos". A prevalência é sempre pelas "balzaquianas", por uma razão que se explica não só pela experiência acumulada, mas pelo acréscimo de um estranho detalhe: elas não têm mais "paquete", ou seja, já passadas da menopausa, não lhes vêm mais as "regras", que as deixariam "incomodadas", afastando-as do trabalho por uns três dias, todos os meses. Escolha com calma; temos todo o tempo do Mundo. Elas é que não têm, ou melhor, até têm mas precisam vivê-lo na pista, alugando-o. Tudo pela arte, ou seja: na pista de um "dancing" vale o "arrocho", suporta-se o bafo, aceita-se o passo, esteja ele no ritmo ou não… Enfim, tirada para dançar, seja o que Deus quiser! Quando sua escolhida perceber que V. veio aqui apenas pelo prazer de dançar, ah!, seu sorriso se porá verdadeiro, sua alegria se fará real. Não fosse o fiscal e ela certamente nem picotaria seu cartão. Dizem que a casa proíbe o uso de perfumes, o que se explica pelo fato de a colônia Tabu – unanimidade entre elas e de aroma inconfundível – passar seu olor para os cavalheiros, fato que já causou muitos atritos domésticos. Do que elas não abrem mão é do batom, do rouge e do hímel. Aí já seria demais; seus cavalheiros que tomem cuidado! Sem dúvida vai se iniciar uma conversa, por vezes agradável, quase sempre divertida. Isso pode levar Você a convidá-la para sua mesa. Feliz, ela pedirá "peppermint", que virá lindo, transbordando verde esmeralda. Você pode, então, pedir conhaque: valoriza sua "macheza". Só não peça Palhinha; é muito popular. Se a intimidade iniciada sugerir algo mais sério, mais profundo, V. terá que esperar pelo menos até duas da madrugada, quando então elas serão liberadas. Não são empregadas fixas da casa, mas têm regras, horários. Tudo dito, pés à obra. Amanhã nos vemos, mesma hora, mesmo lugar.