Uma Cidade a dançar, 2

Que bom que Você veio. Acedeu a meu convite e se pôs pronto para dançar. Não foi surpresa, pois sabedor que Você passou pelas décadas de cinqüenta, sessenta e setenta, eu tinha certeza que a dança também o contagiara. Impossível passar incólume. – Antes de sairmos preciso lhe segredar uma coisa: tenho uma pequena deficiência, mas que muito me incomoda. Procuro guardar isso como um segredo, mas tendo V. me inspirado confiança e como vamos passar um longo tempo juntos, circulando por pistas e pistas, me encorajo e lhe confesso: sou horrível dançando! Fujo da pista se estiver tocando algo mais que um bolero ou, por vezes, um fox. Sentindo um frio em minh'alma, só arrisco um dois-prá-lá, dois-prá-cá. Como neste nosso mergulho no passado temos total domínio sobre o tempo, eu ficaria bem mais confortável se V. me permitisse umas poucas horinhas para um aperfeiçoamento. Não quero fazer feio perto de V. que me parece ser um bom pé-de-valsa. Sendo assim, antes de iniciarmos a visita aos locais onde São Paulo baila, me permita dar uma passadinha na Academia de danças do Professor Patrizzi ou, se não houver vaga (vive lotada!), na do Professor Pavão. Rápidas aulas e já me porei pronto a enfrentar qualquer estilo, do liso ao quadradinho, do samba ao boogie-woogie, se é que alguma orquestra ou conjunto se arrisque a incorporar tal ritmo a seu repertório dançante. – Confiante! É assim que sinto, graças ao Professor Patrizzi. Que venham o chá-chá-chá, o swing, o sambão e até mesmo a marcha fúnebre: eu quero é rosetar! – Como Você dança muito bem e agora eu me sinto mais confiante, posso apostar que qualquer que seja o salão, depois da primeira contradança, nenhuma dama será capaz de nos dar "tábua". Então, sem mais delongas, pés à obra, e quando na pista, revivamos os momentos, os enlevos que sem dúvida nos retornarão à mente. Deslize; permita-se (ou não) o show; traga para seu par aquelas que a lembrança fizer ressurgirem e vá às nuvens. Se a orquestra não lhe agradar, substitua-a. Traga-nos Gren Miller, Ray Conniff… – Para nosso roteiro, não apreciaremos um traçado lógico ou pré-elaborado. Se nos deparar uma gafieira, um ambiente mais descontraído, mais solto ou menos convencional, nos poremos prontos para a ocasião: traje passeio. Se por outro lado o evento exigir gala, um simples piscar de olhos e… eis-nos de "black-tie". E aproveitando a "deixa", já que de smoking, iniciemos o passeio por um palácio, o Palácio Mauá. – Talvez pela proximidade, talvez por uma iniciante tradição, a maioria dos bailes de formatura dos acadêmicos de Direito do Largo de São Francisco se dá aqui, neste majestoso salão, palco de concorridas "domingueiras" que atraem para nosso Centro dançarinos de todos os bairros da Capital. Concorrem com elas outras "domingueiras" de prestígio, as que se realizam nos salões da AABB – Associação Atlética Banco do Brasil – na sua sede da Avenida Prestes Maia. Também vamos passar por lá e tão logo adentrados, vamos reviver momentos postos em desuso nos anos de onde viemos, os que se iniciam pelo algarismo dois: vamos flertar! Flertar, se é que alguém não se lembra mais, é um verbo que indica uma ação próxima do que se conhecerá por "paquerar", só que muito mais romântica, respeitosa. Um verbo que se conjuga lançando olhares emoldurados por leves sorrisos e, às vezes, por um discreto pestanejar ou uma arrojada piscadela. Diferença? No pestanejar Você usa as duas pálpebras, cerrando-as lentamente. Já na piscadela o ritual é outro: apenas uma delas se fecha, enquanto o outro olho, aberto, busca concentrar-se o mais possível nos olhos do alvo escolhido. Há craques nessa arte, que conseguem fazer percebida uma levíssima contração do canto de um dos olhos. Exige treino. Até há bem pouco tempo, a piscada ou piscadela chegava a ser considerada obscena. Hoje (anos 50, 60, 70) nada mais é que uma comunicação natural, mensagem cifrada que exprime simpatia, atração. Quase um pedido de licença para uma aproximação. Vamos ver o que nosso "flerte" renderá de Felicidade. Se publicável, contamos num outro dia, pois hoje já nos estendemos demais. Até!