Sempre achei que deveria ter alguma vantagem em envelhecer. Pois bem, hoje descobri pelo menos uma: olhar para este roteiro e lembrar momentos remotos de minha distante infância.
Não, não morei em nenhum destes lugares que vamos passar. Na realidade, para chegar até aqui precisava acordar as quatro horas da manhã em um distante subúrbio. A obrigação rotineira e monótona de meu pai era meu intenso e breve prazer. Dia festivo, o meu Turismo! Tomávamos o "trem japonês" e chacoalhávamos por uma hora até a estação Júlio Prestes. A saída da estação parecia uma largada da São Silvestre. Multidão de gigantes sem rosto, apressados para algum lugar.
Aos poucos avançávamos por ruas, àquela hora, pouco habitadas. Apenas simpáticas moças. Sorriam para meu pai e falavam algo que eu não entendia.
"Pai, a moça chamou! O senhor conhece ela?"
"Vamos mais rápido, estou atrasado!" A resposta de sempre e para qualquer situação.
Lá íamos nós, agora mais rápido, virando aqui e ali e eu me perguntando como podia meu pai saber o caminho direitinho, por tantas ruas, esquinas, prédios, carros.
Pouco a pouco, a visão tornava-se mais agradável: Largo do Paissandu, com seus grandes cinemas onde, por certo, em algum domingo incerto e não sabido, eu iria com minha família assistir ao último lançamento do Mazzaropi.
Mas não aquele dia, dia "útil", dia de trabalho. Lazer, só para mim. "Vamos mais rápido, estou atrasado" Enquanto meus passinhos voavam pela calçada, meus pensamentos fervilhavam com tanta coisa "para contar amanhã, na escola." Por exemplo, a magnífica visão daquilo que para mim era um castelo gigantesco. "O que será isso? O que tem lá dentro?" Não dava tempo de perguntar. Outro prédio mais a frente eu sabia: a sede da Light, companhia de eletricidade. E do lado do Mappin, "ah!, sim, o Mappin da televisão!!!"
O passo diminuíra um pouco agora. Parece que meu pai também apreciava aquela visão, a essência de São Paulo, o viaduto que um dia descobri chamar-se "do Chá". Também, pudera! Tudo estava ali! Os maiores prédios, a maior concentração de carros abaixo do viaduto, bondes, a praça limpa e muito verde com centenas de gatos preguiçosos, o "Castelo" imponente, o Mappin um pouco atrás e gente. Mais gigantes sem rosto. E assim, já num passo mais preguiçoso, chegávamos ao que considerava a "reta final". Ruas mais estreitas, aconchegantes. É verdade que os prédios pareciam mais antigos, igual a imagens do livro de História da minha irmã. Mas era ali meu pequeno "mundo maravilhoso" (tinha também a praia, mas essa é outra estória).
Parávamos na porta de um bar. Ao lado, quase na calçada, nosso lanche matinal: uma esfiha dupla que nem precisava ser pedida para o moço de bigode; ele conhecia cada freguês e sabia se era com molho, limão, dupla ou simples.
Entre uma dentada e outra, fazia a recorrente pergunta: "Foi por aqui, pai?"
E ouvia mais uma vez, deliciado, sua desventura na primeira tarefa do primeiro emprego ali, quem sabe na José Bonifácio, São Bento ou Quintino Bocaiúva.
Recém chegado do interior, lhe foi atribuída a incumbência de trocar o papel higiênico do banheiro da empresa. Ficou quase uma hora desenrolando o papel que tinha nas mãos, para enrolá-lo novamente no rolo de madeira, preso à parede. "A vida na cidade é muito complicada".
Com esse reforço, reiniciávamos nossa caminhada, e alcançávamos a primeira daquelas duas grandes praças."Porque duas praças tão grandes e tão juntinhas?", pensava, advinhando o destino da Clovis Bevilacqua, incorporada à Sé muitos anos mais tarde.
Ali, na Sé, meu pai me permitia uma parada para ir à "estrela", o Marco Zero do Estado de São Paulo. Então, numa ritualidade formal, ficava sobre a "estrela" imaginando-me no centro do Universo, o meu universo!
"Estou atrasado, vamos!"
Do centro do Universo descia para a realidade paulistana… dali para o laboratório, na descida da Tabatingüera, era mais cinco minutos.
Depois do almoço, na Lisbonense, o dia passava mais rápido, que pena.
A volta era por outro caminho. "Mais novidades para contar amanhã, na escola!"
Imponentes prédios faziam-me lembrar novamente o livro de História de minha irmã: aquele prédio que parece com o … ("qual o nome mesmo?"), algo parecido com o Senado Romano.
"O Páteo do Colégio, onde foi fundada nossa capital" – parecia ouvir o professor falando para mim. Dali via a cidade até onde minha vista alcançasse no horizonte.
Uma sensação de fragilidade me acometia ao passar próximo aos imponentes e gigantescos prédios. Ao mesmo tempo, a segurança da mão paterna que me conduzia para dentro daquele templo católico, onde ficávamos por algum tempo calados, ouvindo o nada.
Dali saíamos mais leves, prontos para o chacoalhar do "trem japonês" de volta ao lar. Mais um viaduto. Ao longe, via o outro, do Chá… distante. Abaixo os relusentes carros, mais prédios, pessoas, os gigantes sem rosto.
"Vamos mais rápido, estou atrasado!"