Sempre aos domingos, o passeio era à chacrinha da Cantareira, de propriedade da família. Não era lá grande coisa, mas para nós, crianças, passar o dia na chacrinha era o ponto alto da semana. Íamos de ônibus, carregados de embrulhos com o almoço, roupas para brincar, pratos e talheres, toalhas de banho e agasalhos. Do ponto final do ônibus pegávamos uma rua de terra e depois de andar ainda um bocado chegávamos à porteira branca do quintal. A casinha, também branca, de janelas azuis, à sombra das laranjeiras, nos esperava.
Até hoje não sei porque, dentro da casa não havia conforto algum, apenas um fogão a lenha, uma pequena mesa de madeira e algumas cadeiras antigas. Não havia nem banheiro, nem água corrente. Estas eram as primeiras providências a serem tomadas no Domingo cedo: fazer um banheiro de improviso no fundo do quintal, cercado por uma lona amarela e tirar água do poço. Nós, crianças, já estávamos de shorts, correndo pra todo o lado, apanhando laranjas e tangerinas.
A família inteira se dirigia então para o lago, que tinha uma pedra enorme no meio e ficava dentro de um pequeno bosque. Tia Marina com seus dois filhos, Yara e Martin, tia Matilde e tio Fábio com suas duas filhas Ilka e Althea e meus pais comigo e com meu irmãozinho Roberto. Algumas vezes o tio Julio, ex marido da tia Marina, aparecia por lá ao mesmo tempo, o que ocasionava certo desconforto e algumas brigas de laranjas entre eles, mais ou menos na brincadeira.
Ninguém nadava no lago, pois ninguém na família sabia nadar. Só molhávamos os pés e tirávamos fotos em preto e branco com a Kodak caixotinho do meu pai. Nós crianças sempre tínhamos muito medo ali no bosque, porque o Toninho poderia aparecer á qualquer minuto. O Toninho era uma espécie de eremita, um solitário, barbudo, muito sujo, que vivia nas imediações. Quanto medo passamos à custa do Toninho!
Voltávamos para o almoço, que já vinha preparado de casa, sanduíches, bolinhos de bacalhau, ovos cozidos, tortas e bolos, tudo colocado na pequena mesa e em qualquer outra superfície possível. O sol entrava pelas telhas (a casa também não tinha forro) e eu me lembro de uma felicidade completa. Eu amava aquela casinha tão pobre, o pomar e a minha família.
A chacrinha hoje não existe mais, provocou briga de herança entre meus tios, acabou sendo vendida por pouco dinheiro. Nunca mais vi as primas Ilka e Althea, meus tios Fábio e Matilde já morreram. Minha prima Yara hoje ainda é uma grande amiga, foi o que sobrou daquele tempo e da nossa família. Do Toninho até hoje falamos.
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