Há exatos 13 anos, lembro bem o dia em que a nossa amiga Vera tocou a campainha carregando uma caixa de papelão. Para a nossa surpresa, continha três filhotes que ela encontrara abandonados numa praça de Interlagos. Sabedora da nossa grande estima pelos cães, nos ofereceu um deles para que o adotássemos. Dois deles já tinham destino certo, uma para ela mesma e outro para o vigia da rua. Sobrou uma cadelinha com cerca de um mês e pouco de vida.
No início fiquei na dúvida, já tínhamos outros cães em casa e ela apresentava uma pata dianteira bem torta, provavelmente causada por uma queda anterior. A Vera insistiu e acabamos por deixá-la conosco em "observação". Muito espertinha, pelagem preta, uma autêntica vira-lata, com pintas brancas nas patinhas e feliz por estar num lar com comida e atenção.
A primeira atitude foi levá-la para exame completo numa clinica veterinária, aplicar vacinas, e a compra da ração de filhotes. Já tínhamos nos encantado com ela e tomado a decisão de ficar com ela. E o nome? Com aquela pata torta, acabou sendo Bella Donna, mais tarde carinhosamente tratada por Bella, Belinha, Pretinha, Neguinha, Menina.
A medida em que foi crescendo, maior era o nosso amor por ela. Todos da família gostavam de estar com a Bella, brincar, passear, alimentar e estar com ela. Gradativamente a Bella Donna foi conquistando espaços na casa, antes dormia fora e passou a dormir dentro de casa e para ter uma "caminha própria" no nosso dormitório não precisou de muito tempo. Tempos depois passou a dividir a nossa cama tipo "king size"
Viajou muito com a gente. Deu-nos inúmeras alegrias e também preocupações quando adoecia. Ela é muito amada por todos, especialmente pela minha esposa Anna pela qual a Belinha tem uma afeição toda especial, a segue por toda a parte e nas ausências dela, deita chorosa na frente da porta esperando a hora do regresso. Aí então é uma algazarra total, pula no colo, late e corre de um lado para o outro demonstrando a felicidade. Nos nossos momentos de tristeza, parece pressentir, e a gente se entende pelo olhar. Só falta falar, pois a linguagem corporal diz tudo.
Apesar da idade atual, ela já grisalha, mesmo assim chama a atenção e quando estou fora de São Paulo, passeando pelas ruas e alguém perguntando qual a raça dela, respondo com orgulho, "é uma autêntica vira-lata paulistana!"
Espero que ainda possamos usufruir bons momentos juntos e finalmente quando chegar a hora, estar do lado dela quando partir, acariciando-a e demonstrando o quanto somos gratos por tudo o que ela nos propiciou. Penso que na evolução das espécies, os cães foram preservados para demonstrar e lembrar a pureza e generosidade de alma do que já fomos.
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