Criança é e será sempre problema, principalmente se viveu essa fase nos anos dourados de 50/60 como foi o meu caso.
O fato que irei relatar ocorreu nos anos 50. Como já tive oportunidade de comentar, eu e meu amigo Zilando tínhamos verdadeira paixão por cinema, freqüentávamos todos os cinemas da famosa Cinelândia, Art Palácio, Ritz São João, Marabá, Ipiranga, Metro, Marrocos, Republica e várias outras salas cinematográficas eram nossas amigas íntimas.
A memória me trai com relação ao nome do cinema que é o motivo principal desta memória. Sei que ele ficava na esquina da Rua Santa Ifigênia com a Rua do Seminário. Era o primeiro prédio daquela rua.
Enfim, vamos à aventura. Segunda-feira, dia de estréia de filmes, aquele cinema estava estreando um filme com a nossa musa maior Esther Willians, a rainha das piscinas, a deusa de Escola de Sereias, e nós, eu e o Zilando, durinhos da silva.
A tentação de assistir ao filme no primeiro dia era grande. Mas como?
Eis que o Ziclér (irmão do Zilando) nos dá a idéia.
– Vocês sabem aquela igreja no início da Avenida Rio Branco? Pois muito bem, os fundos daquela igreja vão direto ao sanitário masculino do cinema, basta vocês pularem o muro que não é tão alto assim.
Sugestão feita e imediatamente aceita partimos para as providências necessárias à boa execução da invasão.
Horário: 18:00 horas (assim assistiríamos, se possível, o filme nas sessões das 18 e das 20 horas);
Autorização: Telefonei para minha mãe e obtive consentimento para pousar na casa do Zilando e assim poder participar da aventura despreocupadamente.
Tudo acertado, passamos o resto do dia na expectativa de colocar o plano em ação.
Às 17 horas, saímos da casa do Zilando que era na Rua Bento Freitas, atravessamos calmamente a Praça da República, como ainda era cedo, paramos para tomar água na “boca” que existia (não sei se ainda existe) na praça, olhamos algumas fotos dos lambe-lambe que ali faziam ponto e, enfim, decidimos colocar o plano em ação.
Chegar à frente da igreja foi moleza, assuntamos as redondezas, os pontos de ônibus que ali existiam nos dariam cobertura mais que suficiente, o portão lateral da igreja era de ferro, com mais ou menos 1 metro de altura e estava fechado.
Decidimos pular e assim o fizemos. Ninguém prestou atenção na ousadia dos dois moleques.
Pé ante pé seguimos pelo corredor lateral e chegamos ao muro que limitava os fundos da Igreja.
Assuntamos e constatamos que realmente estávamos no limite do sanitário masculino e que o muro seria muito fácil de ser escalado e vencido.
Decidimos, então, aguardar o início da sessão das 18, quando o sanitário deveria ficar vazio. Aguardamos. Ouvimos o prefixo do Jornal Noticioso e decidimos ter chegado a hora.
Quando tivemos certeza que o sanitário estava desabitado, escalamos o muro em perfeita sincronia e pulamos no mesmo tempo.
Como todo plano excelente, no nosso também tinha uma falha. Não havíamos previsto que iniciada a sessão os lanterninhas e os guardas estariam mais tranqüilos e poderiam fazer um “xixizinho amigo” mais à vontade.
Assim, quando acabamos de nos refazer do salto, percebemos que estávamos pegos pelos colarinhos por um enorme guarda civil.
Entre choros e súplicas para que nossos pais não fossem “incomodados” com a nossa travessura conseguimos comover o policial e o gerente que, com cara de poucos amigos, nos levaram até o sanitário e exigiram que voltássemos pelo caminho da entrada, não sem antes nos fazerem prometer que iríamos nos comportar melhor dali para frente.
Confesso que a escalada da volta foi, milhões de vezes, mais difícil. As alturas estavam invertidas e nossas pernas, não sei por que, insistiam em tremer desprezando, inclusive, o calor que fazia naquele fim de tarde.
Uma coisa posso garantir, embora a aventura tenha sido assustadora, não foi nunca impeditivo para novas travessuras.
Criança é FOGO!
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