Um trabalho diferente

Naquela época, vou dar-me o prazer de recordar, o ano era 1968 quando me sucedeu a aventura de ter mudado a minha atitude profissional, dando um tempo agora, depois de trabalhar por dez anos na capital de São Paulo, especificamente nas ruas: Cincinato Braga, um trecho da Avenida Paulista, na Avenida Bernardino de Campos, na Praça Amadeu Amaral, na Rua Maestro Cardim, na Rua José Getulio, na Rua Tamandaré, nos hospitais da Real Beneficência Portuguesa, Santa Catarina, Hospital AC Camargo da saudosa Carmem Prudente, com quem tive a felicidade de acompanhar o dinamismo na luta contra o câncer; no Hospital do Servidor Público Municipal na Rua Castro Alves, no Hospital Modelo Tamandaré dos doutores Ricardo Bragalha e Orlando Bragalha, como propagandista de produtos farmacêuticos nos laboratórios Pfizer do Brasil, na Rhodia francesa e na Glaxo Evans inglesa, resolvi dar uma pausa na profissão.

Na ocasião, eu estava muito estressado do ramo. Muito estudo, muita simulada mensal, reuniões cansativas e a responsabilidade de novos lançamentos de produtos farmacêuticos no mercado nacional fizeram com que optasse por uma mudança radical no meu perfil profissional, indo à busca de novas perspectivas de aprendizado em outras áreas do conhecimento comercial. E foi dessa maneira que me bandeei para o litoral paulista, trabalhando e vendendo os produtos da Anderson Clayton.

Diferentemente do anterior, o trabalho era fácil. Difícil eram as condições de trabalho. Todos os dias, impreterivelmente às 6h da manhã, após o café com leite na pensão do Sidônio, lá para os lados da região do Gáudio em São Vicente, lá ia eu tomar o bonde via Matadouro (Avenida Nossa Senhora de Fátima) em direção ao centro de Santos, na sede da Clayton, na Rua do Comércio, próximo ao píer na região portuária. As duplicatas e o roteiro diário eram uma constante no trabalho no dia a dia pelas ruas da cidade na venda dos produtos no varejo. Visitava, em média, 30 fregueses por dia e tinha o “sortilégio” de vender em quase todos os estabelecimentos comerciais da região entre Santos, São Vicente e Praia Grande.

Às vezes, fazia a pé de Santos a São Vicente, circundando o morro de São Bento no centro da cidade, em um percurso de aproximadamente três quilômetros, sobre uma temperatura sufocante de 25 graus na sombra. Para exemplificar o modelo, a numeração não obedecia a uma ordem cronológica normal. Do número 30 ao próximo freguês, no 45, andava-se quase 500 metros, porque o morro circundante não era considerado na numeração normal. Em certas outras ocasiões, em uma das minhas constantes visitas próximo à Vila Belmiro, em uma travessa da Avenida Ana Costa, visitava com regularidade a mercearia do Jair Arantes do Nascimento, o Zoca, pessoa de bom trato comercial, irmão do Edson Arantes do Nascimento, o popular Pelé, o qual tive o prazer de conhecer pessoalmente durante uma das minhas visitas ao estabelecimento comercial – mercearia. Cheguei a brincar com o Pelé se não me arrumava no Santos Futebol Clube para jogar como zagueiro ou em outra posição qualquer (risos).

– Aparece por lá! – disse-me ele sorrindo.

Aquela fala era de pura brincadeira. Naquela fase da minha vida, queria eu ser jogador de futebol? Estava claro que não. Apesar de moço, na minha idade, nem bola de meia eu iria conseguir chutar. Eu era um verdadeiro “perna de pau”. Mas aquilo era apenas um desabafo, uma gozação, produzida pela extenuante jornada cansativa de trabalho.

Eu estava hospedado em uma pensão próxima à praia, que ladeava os contornos da Baia de São Vicente. Da janela do meu quarto, avistava sobre as pedras o monumento da fundação de São Vicente e um pedaço da Mata Atlântica, que se estendia na linha do horizonte até os cimos levemente azulados e transparentes das montanhas da Serra do Mar. De lá, dava para se observar também ao longe a Ilha de Urubuqueçaba, quase intocada, e a Ilha Porchat, onde alguns edifícios residenciais começavam a se formar no entorno da orla. Aos domingos, eu assistia à missa no Marapé, na igreja de São Paulo Apóstolo.

Em uma manhã, depois de trabalhar pelas ruas do Gonzaga, tirei os sapatos, enrolei o cano das calças até a altura dos joelhos e fui até a beira d'água chapinhar pela orla para refrescar os pés do calor escaldante. Estávamos em dezembro, em pleno verão. Depois de chafurdar pela água por um certo tempo, resolvi secar os pés sobre uma saliência do alcantilado de uma pedra. O sol batia em cheio nas pernas. Enquanto secava os pés ao sol, punha-me a observar as pombas que vagavam pela areia macia a beira d'água em busca de migalhas espalhadas pelo chão.

No céu, as aves migratórias chegavam de regiões geladas em busca do calor do sol do verão. Alguns pardais travessos aos saltinhos balanceavam as perninhas em obstinada sincronia entre a areia quente e os arbustos das pequenas pedras. O local era repleto de pássaros como os curiós, o azulão, a coleirinha, o pixoxó cantor, entre outros, que enchiam o ar com seus trinados melódicos. Ao longe, distante da orla, um barco desarvorado que se vai para o alto mar com uma vela branca deslizando suavemente nas ondas ao sabor do vento. Vendo-o, lembrei da música do Roberto Menescau, "O barquinho", que foi lançada em 1962.

Dois pássaros adejam sobre mim e o estridor dos seus gritos domina por um instante o clamor do vento. Daquela hora, já no pico do meio-dia, caminho em direção de casa, deixando para trás o leve murmúrio das ondas na extensa franja de espuma branca que circunda toda a orla da praia. Entrando no meu quarto, sento-me na cama, sem me desembaraçar dos sapatos. Na minha crescente excitação, depois de algum tempo, notei que o pé esquerdo estava inchado com vergões salientes até a altura dos joelhos e começava latejar como se estivesse queimando.

Vencido pela fadiga do trabalho do dia, estendo-me sobre a cama e o sono vem pouco depois cerrar-me as pálpebras e as sutis imagens do sonho levou-me até o morro da divisa onde se tinha uma visão magnífica de toda a orla marinha. Lá de cima, tinha a sensação de ver o céu empalidecido de cor púrpura e o sol na linha longínqua do horizonte, onde a luz é mais brilhante e viva. Tive a impressão de sentir ali a presença de Tristão, o deus dos mares. Aquele sonho agitado logo se dissipou. Acordo em sobressalto e sinto pesar o meu pé esquerdo; o tornozelo deixava transparecer os vergões até a altura dos joelhos. Doía e ardia ao mesmo tempo.

O pé continuava a incomodar-me e dolorosas pontadas me obrigam a passar o resto da noite acordado. Alguém tinha que avisar o meu chefe da minha impossibilidade de trabalhar. Agora o sapato já não adentrava mais no pé, de tão inchado que estava. Ouço vivamente o cantar do galo no quintal da pensão. Acho que deve ser 4h da madrugada. Depois disso, não mais consegui pregar olho.
As noites e madrugadas ali são frias, apesar do verão. Aquelas variações atmosféricas influem muito nesse incomodo do pé. Ao nascer do dia, iria fazer uma consulta médica no Hospital de São José. Estava preocupado com meu chefe, o De Biaze, que ainda não tinha sido comunicado da minha impossibilidade de trabalhar naquele dia.

Essa é a primeira vez que tenho que me ausentar e recorrer ao doutor. O médico, depois de examinar-me, chegou ao diagnóstico. Com certeza durante a caminhada pelo mar eu tinha sido vitima do veneno de uma água viva. Receitou-me o picrato de butezim, uma pomada para atenuar as queimaduras. Quanto ao inchaço do pé, deveria ficar alguns dias em repouso até que voltasse ao normal. Que maçada!

Naquele tédio, os dias pareciam intermináveis. Depois que me restabeleci, tinha que retornar nas minhas atividades normais. Porém, quis a providência que um antigo colega de laboratório, passando as férias no litoral com a família, me avistou durante uma manhã, próximo ao calçadão da praia e depois de uma breve conversa convenceu-me a retornar para o antigo ramo farmacêutico.

– Apareça no laboratório em janeiro, depois das férias. O emprego é seu – garantiu-me.

E assim acabei retornando para São Paulo dentro da minha especialidade no meu ramo de atuação profissional. Hoje, já distante daquele tempo passado no litoral, já estou aposentado. Porém, depois de tudo, valeu a minha experiência naquele interessante trabalho diferente.

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