Um terreno em Itaquera – Uma história do Braz

Antes de sair do Braz, na década de 1960, já com pequena economia e família aumentando, decidimos sair da Rua do Gasômetro; além do apartamento ser pequeno, meu filho Moacyr apresenta sinais de forte bronquite. Recomendação médica: menino precisa de atividade física, vocês moram vizinhos ao gasômetro, isto não é bom.

– Mas, doutor, sempre soube que a fumaça que sai dos bueiros próximo ao gasômetro faz bem à saúde, principalmente quem tem problemas dos pulmões… Sempre vejo pessoas com crianças na borda dessas "bocas de lobo" aspirando aquela…

– Sr. Modesto – interrompe o pediatra, Dr. Clementino, no Braz -, isso é a maior tapeação que inventaram, essa fumaça não faz bem a ninguém, a cia. de gás deve ter espalhado esse boato. E o que faz mais mal ao garoto é aquela fuligem, bem fina, quase imperceptível, mas notada por Dona Myrtes ao estender a roupa pra secar no varal, um pozinho bem fino pousa no tecido úmido, não é, Dona Myrtes?

– É sim – responde minha esposa -, tem vezes que tenho que lavar tudo de novo…

A preocupação em sair de lá é prioritária. Meu cunhado, Oswaldo, tem um terreno em Itaquera e já manifestou desejo de vendê-lo. Fomos ver, gostamos do lugar, fechamos negócio. De imediato, a Myrtes, preocupada com grileiros, insiste pra uma escritura definitiva. Eu quero esperar, mas o sentido de mulher, superior ao do homem, prevalece. Providencio a escritura definitiva e dou "start" pra levantar uma casa. Um ou dois meses se passam e num sábado, pra sentir a distância melhor, vamos até o terreno que tem um suave declive pra rua, pertinho da estação. Sair do Braz, pertinho do centro, não é mole. Planos pra distribuição dos dormitórios, sala, quintal, o terreno é bom, espaço pras crianças e o mais importante: ar puro.

Chegamos, surpresa desagradável. Um senhor, com inchada na mão a cavocar nos limites do terreno, um casebre levantado no fundo da área, olho pra minha mulher e pergunto:

– Não é aqui o nosso terreno?

A Myrtes confirma. Vou conversar com homem, pergunto o que ele está fazendo, ele responde:

– Vou levantar uma casinha, comprei esse terreno do senhor Betancourt, o dono.

– O sr. tem o recibo?

– Tenho sim senhor, aqui está.

Mostra um pedaço de papel branco, de padaria, rabiscado, diz: "Recebi do sr. João a quantia de… como entrada. O saldo, em prestações mensais de…”

– O senhor não faça nada mais no terreno, vai perder tudo… – disse, e mostrei a escritura. – Vamos até a delegacia, é aqui perto e…

– Não, não, o sr. é que está enganado, o dr. Betancourt é dono de toda Itaquera…

No terreno vizinho, a mesma coisa. Só que o homem que comprou, como eu, não se preocupou com escritura, e o "novo proprietário" já se instalara. Vocês podem imaginar a olhada que me deu a Myrtes; traduzida: "Num ti falei?".

Preocupado, vou pro escritório do dr. Betancourt, na praça João Mendes. Lá, com revólver sobre a mesa, ele alega ser herdeiro de terras devolutas, distribuídas pelo Imperador D. Pedro II antes da proclamação da República. É dono, também, da Penha, São Miguel, Vila Esperança e de toda região leste; advogado, diz que vai impor seus direitos e, se não fizer um acordo com ele, vou ter muito prejuízo. Minha irmã Ana Maria e seu marido, Arnaldo (os dois, já falecidos), que tem casa e moram na Rua Caquito, na Penha, também foram acionados pelo famigerado dr. Betancourt, com ameaças também.

Preocupado, procuro um advogado, dr. Rizzo, na Praça da Sé. Se interessa, abraça a causa – "herdeiro de terras devolutas", é fascinante, vamos ver o que ele pretende.

Me aconselha cercar o terreno com aramado farpado. Todo sábado estou no terreno trabalhando na cerca. Num deles aparece um indivíduo familiar, mas não lembro de onde.

– "Modé, lembra de mim…? Antônio Prisco, marido da Helena Pinto, sua vizinha, quando solteira. (bareza com sobrenome "Pinto", já viram? mas tem).

– Lembro sim, faz muitos anos, trabalha por aqui?

– Sim, sou segurança do sítio dos Casoy, ali na esquina.

Começo a lembrar da figura, um cara manjado no Braz, mulherengo, beberrão, alcagueta, sempre metido em confusão.

– Vejo que você está com problemas com o terreno, está cercando, medo de grileiros…

– Medo, não, precaução, cerco pra me garantir contra invasão…

– É, do Betancourt, né? Você acha que isso vai adiantar? Acho que não…

– Pelo menos é uma proteção legal, não vou ficar aqui, dando plantão…

– Olha Mô, cê sabe que aqui a barra é pesada, sugiro a você se precaver, conheço um "malavita" (vida desregrada) que, por cinquenta cruzeiros, "apaga" qualquer invasor.

– Prisco, que catzo de mafioso você pensa que sou… Matar uma pessoa por causa de um terreno? Que espécie de mer… você tem no lugar do "cervelo" (cérebro). "Ma, ve te fê na piccete" (mas, vá dar uma mijada), não me venha mais com estas propostas, por favor… era só o que me faltava…

Hoje, tenho certeza que o Prisco iria fazer o "serviço" ele mesmo. Como já morreu, deixemos e respeitamos os ausentes.

Aí aparece o BNH, oferece residência pra pagar em quinze anos, no Parque Continental, zona oeste, perto de Osasco, vendo o terreno e em dois anos, em 1969, mudo pra onde estou, há quarenta anos, fazendo agora no Carnaval.

Este é o tempo que saí do Braz, nunca deixo o Braz, todo mês visito minha mãe, irmãs e irmãos, enquanto vivos. Hoje, só uma cunhada, Neide, viúva com a filha querida Adriana e o neto Pedrinho. A festa de São Vito, até hoje, sem faltar um ano… Isto é o Braz, indescritível atração que exerce sobre quem lá nasce.

e-mail do autor: [email protected]