Governando com mentiras

Tudo começou em 1964, com a elite assustada, que, depois de ir à missa, ouviu o padre dizer que o comunismo estava a nossa porta. Então lutemos, essa foi a ordem. E saibam: até então, a igreja mandava e desmandava.<br><br>Havia uma ameaça, estávamos também às portas de um regime sindicalista, e a corrupção campeava. Então é preciso acabar com tudo isso.<br><br>Então as madames emperiquitadas se reuniram na Praça da República, e foram cantando louvas a Deus, na Marcha da Família pela Liberdade, até a Catedral da Sé.<br><br>Quinze dias depois tudo estava "resolvido". Estamos fazendo um hiato na democracia desmoralizada, e daqui um ano, quando muito, devolveremos a liberdade democrática. Mas eles gostaram tanto do poder que resolveram ficar. Se é para o bem do Brasil, digam ao povo que ficamos. E ficaram.<br><br>Não tínhamos prestado muita atenção, mas estávamos sendo governados pela mentira.<br><br>No início dos anos 1970 grassava na cidade de São Paulo uma doença de nome meningite, que quando não mata deixa sérias sequelas. Em minha família tivemos meu sobrinho acometido por essa doença. No bairro que morava, Itaquera, várias crianças estavam sob suspeita da doença. Em meu sobrinho foi constatada essa moléstia. Fui visitá-lo no hospital Cruz Azul (Avenida Lins de Vasconcelos) e lá fiquei sabendo que, por ele ter sido socorrido logo que perceberam a doença, estava livre de sequelas.<br><br>Era 1971, os jornais divulgavam notas dizendo que ali ou acolá a doença estava se espalhando, e como as notícias eram dadas com muito medo, pela repressão que os órgãos de difusão sofriam, elas eram colocadas em notas minúsculas, nas páginas número dez em diante.<br><br>O governo veio a público para dizer que não havia o perigo de uma epidemia e o que estava acontecendo eram casos isolados. Veio 1972 e se ouvia a boca pequena que a doença estava presente em vários bairros da capital de São Paulo, e se tinha notícia que nas quatro zonas geográficas da cidade e os hospitais estavam recebendo principalmente crianças com esse diagnóstico.<br><br>A meningite é uma doença que graça mais em crianças, mas muitos adultos estavam morrendo também. Soube de muitos adultos mortos por perto de minha casa, em dois amigos meus no IML foi diagnosticada essa doença.<br><br>Mas os órgãos de imprensa não divulgavam nada. Era proibido, e vigorava a nota do governo feita anteriormente com repetição. <br><br>Já em 1973 a coisa foi piorando e aí, ao final do ano, não dava mais para esconder. Era uma forte epidemia já sem controle. Veio o desespero dos responsáveis pela saúde e o governo teve que se abrir, e uma campanha, que foi feita já no inicio de 1974, até com certo estardalhaço.<br><br>Foi aí que se viu como tínhamos um governo relapso em termos de saúde pública, falando só no "milagre" brasileiro referindo-se à parte financeira, em que o PIB aumentava em mais de 11%, segundo eles, achando que isso seria o céu azul de um governo indigno de ser chamado de autoridade máxima do pais. Já que a saúde estava na UTI, da pouca vergonha.<br><br>Pelo menos já em 15 de março, daquele fatídico ano de 1974, estávamos mudando de presidente. Era Ernesto Geisel, que embora mais um militar, era mais sério que seu antecessor, que mais pensava em futebol, pois era o chamado futebolino, sempre visto nos estádios com seu rádio portátil no ouvido.<br><br>Geisel começava a levar mais a sério o que estava acontecendo no país com a saúde em fase de deterioração, e a epidemia de meningite as escancaras.<br><br>Uma forte campanha foi feita. Um verdadeiro mutirão para vacinar todo o povo brasileiro, porque aí deu para perceber que não só na cidade e no estado de São Paulo, mas em todo o Brasil, a meningite era sim uma grande epidemia.<br><br>Nunca se viu no Brasil uma campanha tão bonita. Vários locais serviram de posto de vacinação. Minha mulher levou meus filhos em uma escola. Eu e meus colegas de trabalho fomos na Cibramar, uma concessionária Volkswagen, da Rua Joaquim Floriano, mas se quiséssemos podíamos ir à fabrica de chocolates Kopenhagen bem em frente, que abriu suas portas cedendo um espaço, já que também todos seus funcionários, uma centena talvez, estavam tomando a vacina. Postos de gasolina e supermercados também cederam locais para uma mesa e vacinadores.<br><br>Estou falando do bairro onde me encontrava, mas em todo o país foi assim. Uma solidariedade só. Por causa disso que a meningite foi abafada.<br><br>Tivemos várias fases de racionamento de produtos de primeira necessidade. Quem não se lembra do racionamento de óleo comestível, com enormes filas para pegar um ou dois litros? Quando alguém se encorajava em dizer algo na fila, quem estava por perto dizia: Cuidado, deve ter algum espião por perto.<br><br>Foi um tempo que não dá coragem nem de lembrar, mas infelizmente tudo isso aconteceu, e, portanto, ficou nos anais da história.<br><br>e-mail do autor: [email protected]