Sempre me interessei pela Revolução Constitucionalista de 1932, ainda mais ao saber que meu avô havia participado dela. Na época da escola nos anos 1970 quase não se falava nesse episódio, pois não era do interesse da ditadura militar que os pequenos alunos soubessem que o povo paulista já havia desafiado com armas (ou quase) o resto do país, mas mesmo assim, eu tinha orgulho de saber que alguém de minha família havia estado lá.
Quando ainda estava vivo, meu avô Antonio nunca falava sobre o assunto, mas talvez porque eu nunca tivesse perguntado sobre isso, afinal, quando ele faleceu, em 1986, eu tinha apenas 14 anos, e esta não é uma época da vida em que a gente se interessa em ouvir os mais velhos, infelizmente.
Mas o tempo foi passando e eu fui garimpando essa história perdida em minha família, e que deixou muitas marcas, direta ou indiretamente, em todos os descendentes. Ela tem início alguns meses antes da revolução começar. Em fevereiro de 1932, meus avós se casaram e foram morar na Rua Catulo da Paixão Cearense, no bairro da Saúde. Como bons descendentes de italianos, eles davam duro para sobreviver e começar uma nova família ao lado dos pais e irmãos.
Essa era uma época conturbada no país, mas principalmente em São Paulo, onde o governo local tinha sérias desavenças com o governo federal comandado pelo ditador Getúlio Vargas. E em 9 de julho começa a revolução, e com isso, vem a convocação do irmão de meu avô para participar dos combates. Mas, como muitos outros oriundis, eles saíram de sua terra natal justamente por causa da revolução italiana ocorrida no final do século XVIII, e, por conta do destino, estavam novamente envolvidos em outra guerra.
Meu tio-avô não queria ir, mas fora obrigado assim como quase todos os jovens adultos da cidade. Inconformado com a situação, na primeira oportunidade que teve, fugiu e se refugiou na casa de parentes no interior de São Paulo. Ao perceber sua ausência, o comandante da tropa ordenou que soldados invadissem a casa de meus bisavós, que moravam no mesmo quintal que o restante da família, inclusive os meus avós recém-casados, e vasculhassem tudo para encontrar o fugitivo. Não é difícil imaginar como ficou a situação da casa após o ocorrido. Móveis novos quebrados, roupas rasgadas e um monte de lixo pelo chão, além das ameaças sofridas por todos. E o pior estava por vir. Como compensação pela fuga de meu tio-avô, dois homens da casa teriam que ir no lugar dele. E a tarefa sobrou para meu avô e outro irmão.
Minha avó Maria, com apenas três meses de casada, via seu marido partir rumo ao interior do Estado, sem saber se o veria de novo. E tudo isso por uma causa que não era deles, porque nessa época os "carcamanos" não eram vistos com bons olhos pelos quatrocentões portugueses da cidade. Mas na hora do trabalho sujo, eles e os demais imigrantes serviriam muito bem.
Mas não era tarefa fácil dobrar um descendente de italianos, ou melhor, de sicilianos, como ele mesmo gostava de afirmar. E assim, dias depois de desembarcarem em alguma cidade próxima da fronteira com o Mato Grosso, meu avô e seu irmão já arquitetavam um plano para escapar com vida daquele massacre, pois o lado paulista quase não possuía armas a não ser as matracas para tentar enganar o inimigo, com suas potentes metralhadoras.
Diante daquela situação desesperadora, todo o batalhão onde eles atuavam já estava cansado, com fome e praticamente abandonado naqueles campos distantes. Foi quando meu avô teve a brilhante ideia de comunicar ao seu comandante que havia avistado uns porcos numa fazenda próxima e, caso fosse autorizado, ele e seu irmão iriam buscar os animais e preparar um banquete para todos. A fome era tanta que o superior não pensou duas vezes e liberou os dois para a empreitada, sem saber que nunca mais os veria, muito menos os porcos.
Dias depois chegaram numa cidade onde encontraram abrigo, assim como outros desertores, em casas de oriundis espalhadas pelo interior. Logo a revolução terminou com a derrota nada surpreendente dos paulistas, diante do poderio do governo federal e da traição de outros governantes. E apenas no final do ano de 1932, os dois puderam voltar para casa. Estavam vivos, porém ninguém que participa de uma guerra volta o mesmo que antes. E a vida de meu avô Antonio ficou para sempre marcada por essa estupidez que de tempos em tempos marca as gerações de milhares e milhares de pessoas neste planeta.
PS. No início dos anos 1980, meu avô e todos os demais ex-combatentes de 1932 começaram a receber do governo homenagens e medalhas pela participação nesse episódio da história da cidade. Ele, é claro, não se sentiu nada lisonjeado com essa situação e ignorou as medalhas e a participação nos desfiles de 9 de Julho até o fim de sua vida, alguns anos depois.
Não é tarefa fácil dobrar um descendente de sicilianos…
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