Corria o ano de 1915. Botujuru, na linguagem indígena tupi guarani, quer dizer “a boca do vento”, ou “a garganta por onde passa o vento”. Era um ponto perdido no meio da mata onde toda árvore, todo arbusto, tomava-se de uma grande energia. Por toda parte, ouvia-se o gorjeio e os assobios alegres e sonoros dos pássaros, o trilar do inhambu, o piar do macuco, o berrar do tucano, o grasnar do jacu, o retinir da araponga, o chiar do serelepe, o rugido bravio da onça pintada perdida no meio daquelas matas selvagens. Um “sorococó” bronzeado soltou de uma caneleira seu sibilo intercadente. Ele menino ainda partiu de São Paulo, na Estação da Luz, em um trem de carga rumo a Botujuru. Deveria naquele dia substituir o funcionário que havia entrado de licença por motivos de doença.
Era ele ainda um aprendiz de telegrafista. A estação de Botujuru era, na ocasião, um posto telegráfico perdido no meio da mata, apenas uma parada ligeira do trem de carga, em uma plataforma rústica de madeira, com um cabineiro efetivo da São Paulo Railway, que morava em uma casa perdida no meio da mata distante. A vida ali no dia a dia, junto da linha férrea, era tão importante, tanto quanto a do maquinista da velha máquina maria-fumaça. Ali, o funcionário controlava o tráfego dos trens no limite de Campo Limpo Paulista até a entrada do recém-construído túnel de Botujuru.
Estavam sob sua responsabilidade as manobras dos trilhos, os desvios das bitolas de carga no pátio da ferrovia e do controle da passagem dos trens de carreira que vinham do interior de São Paulo, especialmente de Campinas e Jundiaí.
Ele teve medo. Era apenas um menino, um adolescente ainda. Tinha acabado de completar 16 anos de idade. O trem de carga avançou entre morros, ante o cenário majestoso e a pouca distância do casebre do posto telegráfico. Estava no último vagão que transportava a correspondência dos correios. No fundo de uma barroca muito vasta, erguia-se um paredão de pedra cinza, talhado na rocha bruta pelas mãos dos operários que ali trabalhavam no término da construção do túnel de Botujuru. Do lado esquerdo da margem da ferrovia, ladeado na montanha, havia um açude natural refletindo a vegetação luxuriante que emoldurava algumas figueiras brancas de raízes cônicas.
Antes havia quase uma semana inteira que estava chovendo continuamente. As matas alegres, viçosas, muito lavadas reviam água pela fronde. O tapete espesso de folhas mortas, que cobria o solo nas matas, estava ensopado, desfeito, ia-se reduzindo a húmus. A terra nua nos caminhos, limosa, esverdeada nos taludes e nas rampas, empapada, semilíquida no leito plano, cortada longitudinalmente pelas trilhas, batida, revolvida, amassada pelos pés dos animais, ora alteava-se em almofadas de lama, ora cavava-se em poças de água barrenta, amarela em uns lugares, em outros cor ferrosa. Corria o enxurro tormentoso, rápido, enxadrezado nos declives; manso, espraiado em toalhas, banhando as raízes das gramíneas no chato, no descampado. Os campos próximos de Botujuru eram brejos, e os brejos eram lagos. No descampado da mata as laranjeiras pendiam os grelos em um desfalecimento úmido; as ameixeiras, as mangueiras, os pessegueiros, os cajueiros viçavam muito lustrosos. O céu pardo, como que descido, parecia muito perto da terra.
Ele tinha partido da capital de São Paulo, na velha Estação da Luz, em um trem cargueiro para a grande aventura do desconhecido em Botujuru. Era um trabalho de um dia apenas. Porém era, na realidade, uma nova experiência. Usava um capotão preto com um capuz debruçado nas costas, até a raiz do pescoço. No peito, um monograma branco com os dizeres “SPR” “Aprendiz de Telegrafista”.
Naquele dia, depois das chuvas, fazia muito calor. Quando o trem de carga partiu pôde ver a margem do caminho alguns outeiros rastejantes e ao longe avistava o cabeço azulado verdoengo do Pico do Jaraguá. De leste a oeste, um pouco além dos trilhos, rolava as águas do Rio Tietê, profundo, negro, taciturno, formando debaixo da ponte de madeira do alagado da Lapa um vale extensíssimo, muito largo. A conformação atual desse vale, a turfa pantanosa que o constituíam em grande parte, era devido ao alagamento anual da calha das margens que nele se operava por ocasião das grandes enchentes das chuvas do verão.
Por que tinha mandado logo ele para Botujuru? Talvez porque era aprendiz de telégrafo. Era uma aventura perigosa para um menino de 16 anos de idade. Na região só tinha mato. Viu a entrada da boca do túnel, depois do assentamento dos trilhos no seu interior. No mês anterior, exatos 2 de novembro, Dia de Finados, tinha passado o primeiro trem depois da colocação dos novos trilhos e dormentes. Os ingleses não eram supersticiosos. Corria, contudo, a falácia que a construção daquele túnel era chefiada por um tal engenheiro inglês de nome Henry J. Beeck e que tinha sido assassinado pelos empregados que o detestavam por causa dos maus tratos. Desde então, diziam os comentários que o local ficou fantasmagórico, porque a alma do engenheiro ficou vagando por lá.
Ouviu o bater das rodas do trem nas costuras de aço dos trilhos assentes. O estafeta dos correios que viajava com ele no último vagão perguntou:
– “Ô menino queira me desculpar, mas que bem pergunte, com alguma curiosidade, porque te mandaram trabalhar nesse local inóspito, no meio da mata?”
– Foram ordens da chefia. O Baltazar Fidelis contrariando as ordens do superintendente Nicolau Alayon me escalou no sábado à noite.
– E teu pai não ficou sabendo?
– Ficou.
O homem deu um tabefe no rosto para espantar as moscas.
– E ele não protestou? Não foi falar com o homem? – Afinal, você ainda é uma criança para estar mergulhado neste inferno verde de Botujuru.
O trem deu um solavanco. As rodas chiaram nos trilhos escorregadios.
– São os malditos solavancos dessa geringonça – disse o estafeta – Um dia esses vagões vão descarrilar.
O menino tirou do bolso do colete um patacão prateado, presente do pai que tinha trazido da Itália, e acertou as horas com o relógio do homem.
– Oito e meia.
Ouviu novamente o ruído das rodas freando lentamente a composição. Uma lanterna de luz vermelha, colocada no canto da linha, anunciava que estava na hora de saltar do trem, em movimento. Desceu ao largo da plataforma de madeira e avistou a cancela com as palavras “Bem-vindos a Botujuru”. Esse menino que foi trabalhar em Botujuru em 1915, um dia apenas, na substituição do funcionário efetivo, era nada menos que meu saudoso pai, quando ingressou na carreira de aprendiz de telegrafista, na antiga São Paulo Railway.