Um jogo memorável

Joguei futebol durante aproximadamente 20 anos. Dois anos como profissional e o restante nos campos das várzeas de Sampa. Como todo garoto, tive meus ídolos. Julinho, Canhoteiro, Pagão, Almir, Zito, Ademir da Guia, Gilmar, contudo, o maior de todos foi indiscutivelmente Pelé. Desde 1956, quando ele surgiu, acompanhei sua trajetória, até o final de sua brilhante carreira, em 1977/8, no Cosmos, uma equipe do soccer americano.

Ver Pelé jogar, era, para mim, vivenciar momentos mágicos. A emoção superava a razão e a racionalidade. Suas fantásticas jogadas, seus gols maravilhosos, sua elegante postura em campo, levava os torcedores de todas as equipes ao delírio, independente do resultado do jogo, se a favor ou contra. Quando o Santos Futebol Clube ou a Seleção Brasileira jogava, sentia-se em cada amante do futebol, uma emoção indescritível.

-“Hoje tem show do Pelé”, ouvia-se por toda a cidade. Lembro-me, ainda com emoção, de uma partida memorável, entre o Santos e o S. C. Corinthians Paulista, no estádio do Pacaembu. Em disputa, a taça dos invictos, que era uma promoção do jornal "A Gazeta Esportiva", o melhor veículo esportivo da época. Essa taça, um troféu cobiçado por todos os clubes paulistas, estava em poder do Timão.

A expectativa sobre esse jogo era enorme. Realizado numa quarta ou quinta-feira à tarde, não me recordo muito bem, atraiu um enorme fluxo de torcedores ao estádio. Fui ao Pacaembu em companhia de José Roberto, Tito, Lipa e Cabeção, da turma da Raul Pompéia. O Corinthians, invicto a três partidas, possuía uma equipe muito boa, comandada pelo técnico Oswaldo Brandão, já falecido, que era considerado um "bruxo", pelas previsões que fazia sobre os resultados dos jogos das equipes que dirigia.

Porém, o Peixe, dirigido pelo técnico bonachão Lula, também já falecido, era uma verdadeira máquina, talvez o melhor time do mundo, e Pelé, já com 18 anos e campeão do mundo, sua maior estrela. Naquela tarde, o técnico Brandão, sem poder contar com o zagueiro titular, escalou Paulo, um centro-avante tosco, mas muito raçudo, em seu lugar. Sentados na arquibancada, no lado direito dos portões de entrada, acompanhávamos a partida com muito interesse, vibrando com as espetaculares jogadas de Pelé e cia. O "crioulo", que já tinha o Corinthians como seu adversário favorito, marcou dois gols, um dos quais de forma sensacional. Descrevo assim:

– Deslocado para o lado direito do campo, lado das gerais, o ponta-esquerda Pepe preparou-se para cobrar um escanteio. Pelé, dentro da área do Timão, levantou o braço para melhor visualização de seu companheiro. Pepe cobrou como sempre, com força. Pelé, dono de uma incrível impulsão, subiu um metro do chão, como se fosse cabecear, e, para surpresa de todos no estádio, "matou a redonda" no lado esquerdo do peito e, ainda no ar, de pé esquerdo colocou a "criança" pra dormir no ângulo direito do gol defendido por Gilmar, que ficou estático, simplesmente balançando a cabeça, como se não acreditasse no que tinha acontecido.

Fiquei pasmo por alguns segundos e, emocionado, levantei-me e aplaudi, como todo o estádio, a obra-prima que havia visto. Como é possível, pensei e comentei com meus colegas, alguém fazer tal jogada. Subir, parar a bola no peito, num chute potentíssimo do jogador Pepe, e, antes que os defensores se mexessem, estufar a rede de Gilmar, considerado na copa de 1958, um dos melhores do mundo. O placar, 3×2, seguia favorável ao time da Vila Belmiro até, mais ou menos, 44 minutos do 2º tempo.

De tanto, pressionar a equipe do Parque São Jorge conseguiu um escanteio. Batido, a bola sobrou à meia altura, num "bolo" de jogadores, dentro da área santista, e Paulo, o zagueiro improvisado, mergulhou contra ela e, de cabeça, a impulsionou para a meta defendida pelo goleiro Laércio. O golpe de cabeça não foi forte, porém certeiro. A redonda deslizou vagarosamente pela grama úmida, por causa da garoa, e entrou no canto esquerdo, rente ao poste, parando logo após a linha demarcatória do gol, e ali ficou, como se quisesse zombar dos santistas.

Gol do Corinthians. Explosão no estádio. Alegria corinthiana. Raiva santista. A taça permaneceu onde estava: No Parque São Jorge. A arquibancada onde nós encontrávamos era de madeira e, na nossa frente, um torcedor santista desvairado, rasgou sua camisa e começou a pular, arrebentando parte do banco. Urrava e xingava, inconformado. O jogo terminou empatado, resultado injusto pelo futebol apresentado pelo Santos, mas justo pela garra corinthiana.

No caminho de volta para casa, nós, palmeirenses em sua maioria, comentávamos sobre a "bruxaria" ousada do técnico Brandão, para deleite de Cabeção e sobre as jogadas inacreditáveis de Pelé, um jogador sobrenatural. Posteriormente, assistir pessoalmente e pela TV outras partidas do Santos. Contudo, esse foi um jogo memorável, pois pela primeira vez, vi em campo meu grande ídolo Pelé.

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