Nervos de aço e fígados de alumínio anodizado

Bebo pouco. Nada errado com meu fígado; o índice Gama GT é bastante baixo. Apenas falta de resistência. Uns nasceram para beber, outros não. Já contei de meu primeiro porre, coisa inevitável de principiante. Saíra do Colégio de Aplicação, R. Gabriel dos Santos, com uns amigos. Logo ao lado, o belo Cine Sta. Cecília. Entre o colégio e o cine, um também inevitável boteco.

Ali tomei minha primeira cerveja, Brahma ou Antártica, não importa, o efeito foi o mesmo. Saí tonto, mal sentindo as pernas, mas perfeitamente o enjôo. Deitado no apartamento, o teto girava como um helicóptero. Foi o primeiro não o único, mas tive poucos porres memoráveis. No ambiente publicitário bebia-se muito, ao menos naqueles tempos. Mas eu só dava umas bicadas, de vez em quando.

Certa vez, no almoço natalino de uma generosa agência carioca, tomei não menos de seis ótimas doses de Buchanan´s, para acompanhar a cavaquinha com champanhe. Cheguei em casa com muito sono, mas tinha descido muito bem. Em compensação, velhos amigos convidaram-me, há poucos anos, para um happy hour, num bar aberto, montado numa praça perto do Ibirapuera.

Quando lá cheguei, eles já tinham emborcado algumas doses do escocês. Estavam alegrinhos:
– O Cutty Sark está em promoção, vamos aproveitar! Tomei duas doses, talvez. E comecei a sentir-me mal. Mal sentia os pés tocarem o chão.
– Para mim, chega!
– Vamos à saideira, então! Estupidamente, acompanhei-os nessa.

Quando o valet trouxe meu carro, vi que não estava nada bem. Mas, já era hora avançada, com pouco trânsito. Guiando cuidadosamente, cheguei incólume em casa. E, ao deitar, novamente o efeito helicóptero, como no bar do colégio, tantas décadas atrás. E a ressaca, no dia seguinte? Liguei para os dois, e nada. Não tinham sentido nada de mal. – Não é possível, exclamei. Esse Cutty Sark (uma espécie de veleiro) aportou e foi batizado em Puerto Stroessner!

Não tem jeito, alguns têm fígado de alumínio anodizado, eu não. Como um poderoso chefão, que comandou equipes de criação em várias agências. Trabalhei com ele, algumas vezes. No fim do expediente, sempre chamava uma garrafa de uísque, e era capaz de vertê-la sozinho. Fumava muito e há alguns anos teve sério problema intestinal, sendo operado no Sírio Libanês.

Na verdade, o problema devia-se menos ao álcool que ao fumo, vasoconstritor. Então, ele diminuiu o cigarro, mas bebe mais para compensar. Bem que eu gostaria de ser como um Hemingway, charmosamente tomando uns drinques na Closerie des Lilas, enquanto escrevia. Ou no Harry´s Bar, em Veneza.

Nada feito, mas consola-me ter participado de umas rodadas no saudoso Paribar, da Pça. Dom José Gaspar. Que mesmo sendo poucas as doses, era grande a felicidade de ver desfilar na varanda toda boa São Paulo da época.

E-mail do autor: [email protected]