A Natureza é fascinante e tudo nela me encanta. Da pequenina e colorida flor à mais frondosa árvore, os animais, as águas. Como é lindo o voo do beija-flor com aquela espetacular paradinha no ar. Quão gratificante é encontrar o olhar de um animal de estimação nos transmitindo mensagem de puro amor, sem exigência alguma. Só quem já se deparou com um ninho cheio de ovos, ou mesmo com alguma ave rodeada pela ninhada, é que pode avaliar tamanha felicidade.
Que saudade do orvalho na relva do campo, naquelas longínquas manhãs de inverno. O murmurinho das águas vindo das pedras, no riacho que atravessava o caminho e ia de encontro aos lírios do brejo, com suas flores brancas de perfume inconfundível, que ficarão eternamente na memória. Por voltas dos anos 62/63, apareceu no Bairro do Valo Velho, Km 27 da Estrada de Itapecerica da Serra, o “Seu Bento”, com seu pequeno caminhão.
Ele fazia a alegria da criançada, então logo passamos a chamá-lo por “seu Bentinho”; ele trazia maçã do amor e pintinhos da granja para serem trocados por "ferro-velho" (alumínio, garrafas de vidro e latas). Quase não tinha alumínio e garrafas, mas latinhas, dessas fizemos uma montanha, não escapava uma. Quando “seu Bentinho” passou, levou vários sacos de estopa cheios de latas. E assim ficaram, lá em casa, dúzias de pintinhos da granja.
Nessa época, meu pai José, mineiro vindo de Guaxupé, construía casas na Olaria. Eram casas feitas com muito esmero, para moradia e alegria dos operários, com seus numerosos filhos. Em casa, minha mãe Ana, criava alguns animais, tinha de tudo um pouco: coelho, porco, galinha, marreco, ganso, pato e peru. Naquela tarde, levei meu pai para ver os pintinhos e ele ficou bravo, disse que pintinho de granja são fraquinhos, morrem todos. E que a carne de frango da granja não tem sabor e, além de tudo, naquela troca foram as latinhas, que normalmente eram entregues ao “seu Canecão”, que fazia canecas e lamparina a querosene, de onde tirava o sustento da família.
Meu pai zangou-se, mas minha mãe aprovou. Então combinamos que as franguinhas ficariam para botar. Realmente, poucos sobreviveram e dentre eles somente uma franguinha, a qual eu dei o nome de Branca. Muitas galinhas gostavam de botar no mato. Às vezes minha mãe seguia a galinha e voltava com a cesta cheia de ovos, deixando um ovo no ninho, "indês", para a galinha não deixar de botar. Outras vezes deixava prá lá e a galinha chocava no mato e aparecia rodeada de pintinhos.
A Branca cresceu, tinha a face rosada, o corpo branquinho feito algodão, e logo começou a botar. Eu não queria que ela chocasse no mato, então, minha mãe e eu fizemos uma aconchegante "maternidade" para a Branca e as demais. Aquele galinheiro ficou o máximo.
Fizemos de bambu verdinho partido ao meio e amarrado com cipó, a cobertura de sapé colhidos no campo e os ninhos de capim também retirados do campo. Minha mãe pôs a Branca para chocar. Contente, levei meu pai para ver e ele acenou a cabeça e, reprovando, disse: – “sua mãe não tem o que inventar por galinha de granja para chocar.” O que ele e nem eu sabíamos, foi que minha mãe teve uma boa idéia.
Passados os dias certos, na mudança da lua, minha mãe disse: – “hoje os pintinhos da Branca vão PICAR.” E picaram todos, não gorou nem um. Levei meu pai para ver, tinha pintinho amarelo, pretinho, pintado, pescoço pelado e até patinhos. Meu pai sorriu. Finalmente aprovou. A Branca era mãe zelosa e estava sempre ao redor de casa acompanhada dos filhos. Certo dia ela reuniu a turminha e arriscou um passeio mais longo; desceu a ladeira onde tinha um pequeno lago.
Então, rodeada dos filhos, explicou, orientou e acreditou. E lá foram os patinhos, sozinhos, para o primeiro nado. A Branca na beirada da água, orgulhosa, admirava os filhos adotivos; e eu, no topo da ladeira, orgulhosa, admirava a Branca, minha galinha da granja. E pensar que pela troca dos recicláveis, para proteção do meio ambiente, recebi aquele lindo presente, tão frágil e tão valente. Tenho sonhado com uma estrada infinita de "Caminhão do seu Bentinho", passando pelas cidades, bairros, vilas, ruas, retirando o que pode ser reciclado e nosso “Recurso Natural” preservado, diminuindo assim o volume de resíduos nos aterros sanitários.
Tudo que fica misturado nas caçambas, em enormes sacos amarelos ou pretos, encontrados nos postes, em sacolinhas plásticas, em caixas de papelão ou espalhados pelo chão, entupindo os bueiros, judiando e poluindo nossos rios.
Tudo sendo retirado e trocado por amor, mais amor do que a “Mãe Natureza” já nos dá pelo ar, pela água, pelo solo, por esse nosso Brasil tão rico. Tenho sonhado… Como tenho sonhado…
Muito agradecida por me permitirem partilhar, com todos, essa modesta vivência e esse “Grande Sonho”.