Possuímos "amigos", outros são muito mais que isto, beiram a cumplicidade, diferenciando ambos, sempre fazendo parte das coisas em nossa volta. Em casa sempre cuidamos de criação de vários tipos e estávamos rodeados de vários animais e nesse universo estavam também cachorros que "fizeram história": Dingo, Jolly, Xande, Rex, este último nome foi àquele que formou uma dinastia, pois foram vários.
Um marcou época e dele me recordo com nostalgia, para não dizer saudade. O nome da "fera" era Flae, tinha menos de quarenta centímetros de altura, pêlos pretos com poucas manchas brancas. Ele não tinha tamanho para arrumar confusão como os outros, aliás, era esperto o suficiente para evitar encrencas, mas era corajoso, não se escondia por covardia.
Meu pai era homem da "lida diária", como tantos outros que saiam de madrugada a pedalar sua bicicleta por São Paulo a fora, no trabalho cotidiano para fazer a cidade crescer. Esse "amigo" acordava com o "velho" a escutar Tonico e Tinoco, música saída de um rádio marca Bell, que chiava com uma frequência variável e depois seguia os passos de meu pai até o barracão, a "garagem" do veículo de duas rodas que tinha um motor fortíssimo: os músculos de seu Ernesto.
Não tenho muita certeza, mas acho que meu pai dava-lhe alguma ordem especial, antes de partir, do tipo “onde fosse o filho era para ele ir atrás” e o danado seguia a risca. Pela manhã minha mãe "me aprumava" para ir ao 1º Grupo Escolar do Jardim São Luiz, bairro que havíamos chegado a pouco e que possuía uma casa aqui outra acolá, só mata virgem de onde vinha uma cerração pela manhã que não se enxergava um palmo diante do nariz.
O Flae ia até certo ponto comigo depois "me abandonava" e voltava para casa, sabia mais o caminho do que eu. Na volta da escola ele estava de guardião no mesmo lugar em que me deixara e vinha a minha volta a "fazer festa", assim meu único uniforme antes aprumado ficava todo escangalhado com marcas de suas patas, que me fazia receber uns safanões de minha mãe, por não saber cuidar das coisas. Almoçava e saia no "pau do mundo", acompanhado do fiel Flae que seguia a risca as ordens recebidas do meu velho, ele era meu amigo e também meu dedo duro, pois ficavam nele as marcas de nossas aventuras.
Certa feita saiu uma "penca" de moleques que apareciam não sei de onde, "roubar caqui" da propriedade da chácara da ‘Dona’ Rosa, da família Teixeira, que não se importava muito com "esses gajos", o termo era para designar nossa pilantragem e por vezes substituído por "marotos", pois o primeiro soava como algo ofensivo quando "ralhava" conosco. Os frutos, ainda verdes no pé, travavam na boca, mas pouco importava o sabor, o fato e feito era mais para extravasar nossa infantilidade perto da lagoa construída para as regas diárias das plantas, águas represadas pelos chacareiros de um pequeno riacho que depois recebeu o nome de Curtume, e que corta o bairro, riacho hoje fétido, afluente do Rio Pinheiros.
Com a despreocupação costumeira, um "belo dia", de repente, o Flae caiu na lagoa. Pensei que não iria mais vê-lo, e eis que o danado, sem nunca ter entrado em escola de natação, saiu do outro lado da margem, cheio de lama preta grudada em todo corpo, era a senha para minha mãe descobrir que eu estava na chácara. Na época eu me perguntava quem tinha vindo falar, nem imaginava que meu amigo Flae entregava-me.
Quando saíamos para os rachas do campinho de futebol, voltávamos sujos e sorrateiramente entrava, pelos fundos, em um tanque para tomar banho lavando também camisa e calção, para que a terra avermelhada do lugar não fosse descoberta, esquecia-me do Flae, ele sacolejava a poeira, mas não saia tudo, e, assim, era novamente descoberto pela mãe investigadora. Nas outras empreitadas ele "recolhia" no meio do mato uma série de picão que grudava no seu couro, pronto eu estava novamente em um lugar "longe de casa" e que por causa de nossas empreitadas no local ficou oficialmente conhecido com "Fim de Semana", mas as travessuras eram a semana toda.
Só me dava descanso quando meu pai estava em casa, cruzava as patas dianteiras com todo corpo apoiado no chão, não entrava porta à dentro, observava o velho fixamente a dizer: "Quais são as ordens"! Os dois simplesmente se olhavam e entendiam-se, pois na semana vindoura o Flae não saia de meu pé, era impressionante sua fidelidade.
Ele ainda trabalhava e "recolhia" a tarde todas as aves para o galinheiro correndo em círculo; acredito que era "pastor de galinhas", nunca entendi dessas raças caninas, ou estava mais para "vigilante", ou para "vira tudo".
Voltávamos não pela hora, mas por extinto de "mais um dia de labuta lúdica", correndo para escutar no rádio, único aparelho elétrico de então, "Juvêncio, o Justiceiro do Sertão", a esperar a "gororoba" para repor as energias, pois as perdas eram grandes.
Ele sabia quando o velho retornava, ficava na escada de terra batida que saia do quintal para a rua, de repente desembestava "sentindo no ar" a presença do meu pai e assim corria também em sua direção, ele vinha fazendo firulas em volta e eu trazia a bicicleta.
A vida poderia parar naquele instante, estava sublimada neste estágio que se diz de felicidade, mas a vida não parou e um dia o Flae não fez as suas obrigações, fechou os olhos e nunca mais quis acordar. As lágrimas desceram na face, alguém disse que era para parar com o choro, que cachorro "não tinha alma".
Por que não tinha alma? O Flae sim, e, descansa em paz, pelo dever cumprido, pois nos deu somente alegrias, deve estar a ouvir o velho e ambos me vigiando lá do céu…
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