Um fascista na família!

Faz algum tempo (1995), estava eu caminhando por Roma, perto do monumento da "Máquina de Escrever" ou "Bolo de Noiva" (uma homenagem construída em mármore por Mussolini a Vittorio Emanuelle). Estava distraído quando numa curvinha enxerguei um cartaz anunciando um Museu de Cera naquele local. Era um museu decadente, empoeirado, que eu já havia visto na década de 50 na Praça da Sé em São Paulo (meu pai, andando pelo centro me levou). O nome do dono do museu era o mesmo. Aguçou ainda mais a minha curiosidade. Paguei e entrei. O prédio era muito antigo, num estilo renascentista, parecia ter sido construído no século XVII, pinturas destruídas no teto, escadas entalhadas super desgastadas, apliques de gesso descolando das paredes, gigantescas lareiras com acabamento em mármore e portas divisórias de cristal bisotado.

O local estava empoeirado e cheio de teias de aranhas. O passeio incluía desfilar por entre Bela Adormecida respirando, condenado à morte por enforcamento, cena de uma condenação em cadeira elétrica, Maria Antonieta na guilhotina, Adolf Hitler, carrascos com machados, Benjamim Franklin, Leonardo Da Vinci etc.

Ao subir no último andar, onde o teto ressaltava a falta de restauro nos afrescos, encontrava-se a última reunião de Mussolini com seus quarenta asseclas. Era uma profusão de estátuas de cera cercando a figura do ditador fascista. Alguns sentados em trono de uma enorme mesa em "U" e outros tantos em pé. Comecei a ler a placa com os nomes dos participantes e, para surpresa minha, vislumbrei o nome Bignardi entre eles. Percorri com os olhos os rostos de cada figura para ver se alguém me pareceria familiar. O único era uma figura em pé, alta, rosto triangular, cabelos lisos e meio avermelhados, nitidamente nórdico, lembrando muito o vovô Severino Bignardi (pai da minha mãe). Mas não dei muita importância ao fato, pois ainda faltavam muitos. Quando terminei a revista não achei mais ninguém que pudesse lembrar alguém conhecido por mim.

Comecei a contar nos nomes escritos. O Bignardi era o décimo primeiro da esquerda para a direita na fila dos que estavam em pé. Iniciei, então, a contagem das figuras. O tal que parecia como o vovô era exatamente o décimo primeiro e em pé… Me senti meio acuado, como um criminoso que estivesse sendo perseguido pela polícia. Olhei para os lados… e saí de mansinho, pensando: "um fascista na família"… quem diria?!!!

No caminho de volta para o hotel, liguei os fatos… O vovô veio para o Brasil como imigrante, foi para Araraquara trabalhar na lavoura. Casou com a vovó Maria em Nova Europa (cidadezinha próxima a Araraquara) e em menos de um mês veio para São Paulo e estabelecendo uma gráfica na Rua Jandaia, em sociedade com os irmãos e Bruno Pavanelli.

Achei muito estranho que um trabalhador da lavoura, presumivelmente pobre e imigrante, montasse uma indústria gráfica em menos de um mês, em um país totalmente desconhecido. Uma indústria que nas décadas seguintes até 1970 se tornou uma das grandes empresas gráficas do país.

Além disso, na década de trinta, ele foi morar nos arredores da Avenida Paulista, mais precisamente na Alameda Santos, ao lado dos Zerrener (donos da Antártica), reduto dos milionários da paulicéia. Foi amigo do velho Francesco Matarazzo, que mantinha estreitas ligações com os fascistas, a ponto de importar o arquiteto preferido de Mussolini (Marcello Piacentini) para construir a sua mansão da Avenida Paulista e o prédio Matarazzo, onde hoje se encontra a Prefeitura do Município.

O fato era corroborado por afirmações de minha mãe que dizia que, quando solteira, chegou a frequentar várias festas na mansão dos Matarazzo.

É bem verdade que durante todo o período da segunda guerra mundial o vovô esteve residindo no Brasil, e nada consta afirmando que ele era ligado ao fascismo de Mussolini. Mas como um grande e rico industrial, pairam muitas perguntas que acabam ficando sem resposta. Mas uma coisa fica certa: o tal Bignardi, da última ata do Mussolini, com certeza era parente do vovô Bignardi, fato que com certeza foi ocultado por ele para a família toda.

Enfim, é muito engraçado e intrigante ficar imaginando a origem de cada imigrante europeu que ajudou no desenvolvimento do Brasil e, em especial, da cidade de São Paulo.

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