Um domingo de Páscoa…

Houve uma vez, em tempos muito distantes, um domingo de Páscoa que marcara para sempre nossa família, os espanhóis Conejeros que moravam na Rua Luis Gama, no Cambuci, quase na esquina por onde passava o Rio Tamanduateí.

Fora assim, contava a minha mãe: durante a Quaresma, naquele distante ano, após uma enchente, nossa casa (que era grande, velha e feia) ficara cheia de detritos e escurecera de vez. Dentro da casa, depois da enchente, uma febre começara pegando as crianças. Comadre Fidalga viera para fazer “escalda-pés”, ferver leite quente com manteiga e derreter banha de galinha para passar no peito e nas costas de todos os doentes.

Na Sexta-feira da Paixão, na noite da Procissão, as crianças que haviam sarado saíram vestidas de anjo para pagar a promessa que fizeram. A avó fora descalça com a fita do Sagrado Coração de Jesus no pescoço e tita Ana levara nas mãos esticadas a fita de congregado Mariano, de tio Juan, "el Juanito", o único que não sarara e que ficara em casa ardendo em febre.

No Sábado de Aleluia, depois que os sinos repicaram, todos lavaram o rosto e os olhos em uma bacia cheia de água do poço, no quintal da casa. Mas uma nuvem escura havia encoberto o sol e uma forte ventania levantava poeira na rua, arrancava folhas das árvores e balançava as roupas do varal. Como um manto, uma garoa fininha, vindo em ondas, descera encobrindo tudo. Esfriara muito e a avó assustada perguntava se isso tudo não seria um mau sinal.

“No es buen sinal cuando las páscuas son Marçal” – murmurava pensativa.

Domingo de Páscoa, na madrugada, sem o avô e a avó, foram à Procissão do Encontro lá no Brás, que isso era uma tradição da família e vinha desde os tempos em que chegaram em São Paulo, na hospedaria dos imigrantes, na rua Visconde de Parnaíba; e moraram naquele bairro. As mulheres saíam em procissão, da igreja do Brás, com Nossa Senhora à frente e os homens saíam com Jesus da outra igreja. Jesus e sua mãe Maria caminhavam pelas ruas do bairro para se encontrarem no largo de São Rafael. Havia então uma profusão de fogos de artifício, os sinos das igrejas repicavam e todos se desejavam um feliz domingo de Páscoa.

Naquele domingo gelado, depois do encontro de Maria e de Jesus, ao entrarem na casa encontraram a avó chorando desolada. O avô chamara as crianças, as reunira no quintal e dissera que “tio Juan, el Juanito, hijo de su alma y de su corazón, el se havia volvido a Diós, a su casa eterna. Contara que todos nós tínhamos uma casa eterna, nossa, nos céus”.

Na segunda-feira, “na Pascuela”, assim que acordara minha mãe contava também que correra para contar o sonho daquela noite. A avó e tita Ana estavam de negro costurando tarjas pretas nos paletós e nas roupas das crianças. Ajoelhada ao lado delas, a mãe dizia que no sonho, vira o tio acenando e caminhando em direção ao Tamanduateí. No momento em que mergulhara, o rio se fizera inteirinho de azul e o tio surgira nadando. Tão bonito, tão livre, tão solto, os cabelos negros cheios de caracóis e desse modo fora deixando para trás a casa grande, feia, velha que o rio inundava e escurecia. Acenando, seguira em direção à casa eterna, nossa, nos céus…

P.S.: esta é a minha homenagem ao tio Juan Conejero, "el Juanito", cuja vida breve foi feito a vida destas pessoas que, como ele, passam rapidamente por este nosso planeta. Feito cometas, riscam os céus e, em sua breve e rápida trajetória, iluminam todo o firmamento.

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