O dia que terminou a II Guerra Mundial

Era uma terça-feira, dia 8 de maio do ano de 1945, eu estava no segundo ano do grupo escolar Romão Puigari. Entrava no segundo período que se iniciava às 11h da manhã ate às 2h da tarde quando começava o terceiro. A nossa professora era a Dona Deolinda que tinha a mania de atirar uma régua grossa na gente, tinha uma pontaria fantástica, acertava sempre no alvo. O Pedrinho careca, meu amigo de infância, era sempre a vítima, porque estava sempre envolvido em pendengas. Éramos-nos treinados para que sempre que alguma pessoa abrisse a porta e adentra-se na sala de aula todos os alunos em sinal de respeito se levantavam.<br><br>Naquele dia mal tinham começado as aulas, algumas pessoas entraram em nossa sala com um aparente sorriso no rosto. Na frente vinha o diretor Sr. Henrique Simonetti acompanhado do Vice (que não lembro seu nome) e mais duas professoras. Ele começou como que a ensaiar um discurso, mas foi logo anunciando, que estava naquele momento suspendendo as aulas por ordem da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, pois a II Guerra Mundial tinha chegado ao fim naquele momento, com a derrota e a rendição dos Nazistas Alemães. Para nós aquilo não tinha muita importância a não ser que iríamos sair cedo e poderíamos brincar por mais tempo naquele resto do dia.<br><br>Com nossa mente tão inocente, pois ainda não tínhamos completado 11 anos, não conseguíamos entender a magnitude daquele momento. Quantas vidas iriam ser poupadas depois disso, embora o tempo pós-guerra ainda fosse ser terrível para muita gente. Mas o que veio logo no meu pensamento foi a alegria que a Dona Maria portuguesa e o Sr. Osvaldo, seu esposo que eram nossos vizinhos na Rua Caetano Pinto e tinham seu filho lutando pela FEB Brasileira na Itália e que tinha sido aprisionado alguns meses antes, iriam sentir daquele momento em diante. Ele estava em um campo de concentração nazista e com o fim da guerra com certeza iria voltar para junto aos seus familiares.<br><br>Ele que tinha sido dado como desaparecido em combate e praticamente estivesse morto, tendo sido homenageado pelos amigos e parentes na sede do clube em que jogava, o XI Milicianos, com um velório de uns dois ou três dias até que surgiu o novo telegrama do Ministério do Exército confirmando o seu confinamento em um campo nazista. Naquela volta o "Herói da Nossa Rua”, iria ser o protagonista de nossas homenagens.<br><br>E lembro que em um dia de junho ou julho não recordo exatamente, foi noticiado que o navio que trouxe a primeira leva de soldados tinha aportado no Rio de Janeiro. E já no dia seguinte os soldados de São Paulo iriam desembarcar na Estação da Luz depois de desviar no entroncamento no Braz e seguir pela Santos-Jundiaí até a Luz. Dali eles iriam ser transportados até o Vale do Anhangabaú, donde iriam marchar até a Praça Marechal Teodoro, donde seriam dispersados e se juntariam a seus amigos e familiares.<br><br>Na nossa rua muita gente até faltou ao trabalho para ir assistir e dar as boas-vindas aos heróis pracinhas. Ainda não tínhamos a confirmação que o Osvaldinho e o Antonio, que era da Carneiro Leão, chegariam com esse grupo, mas fizemos questão de ir acompanhar as festividades . Lembro bem do dia cansativo que foi para mim, pois fomos caminhando até a estação da Luz e subindo a Rua Santa Rosa alcançamos a Rua Mauá bem cedo e conseguimos ver o trem que levava os soldados bem vagarosamente, pois já estava próxima à estação. Lembro que fizemos sinais a alguns deles que estavam com a cabeça fora da janelinha e eles saudaram a gente de volta o que nos deu muita alegria.<br><br>Dali fomos informados que eles iriam começar o desfile no Anhangabaú e foi para lá que fomos. E como o vale estava já tomado por muita gente, seguimos pela São João até encontrarmos um lugar donde poderíamos ver se reconheceríamos o nosso herói, e na avenida havia sido construído um arco que dava as boas-vindas aos soldados que eram muito lindos, esse arco estava perto da Praça Julio Mesquita. Naquela altura, depois de tanto andar eu estava super cansado e já sentado na sarjeta da avenida. Até que eles acabaram surgindo, mas isso depois de muito tempo, não consigo lembrar depois de tantos anos, o quanto mas talvez horas. <br><br>Quando eles surgiram marchando pela Avenida, firmamos nossos olhos em todos eles, mas pareciam no meu entender que eram todos muito parecidos a não ser pela cor, pois como tinham todos os mesmos uniformes e capacetes não dava para reconhecer o Varella e aí fomos caminhando e os acompanhado até a praça donde iriam ser dispersos. Bem na entrada da praça tinham dois caminhões de bombeiros com aquelas escadas Magirus formando um V da vitória que era o símbolo dos combatentes. E famílias e amigos carregando nos braços seus heróis depois de dispersados e um atrás do outro passavam alegres e felizes descendo de volta à Avenida São João. <br><br>Para a nossa tristeza depois de tanto sacrifício não conseguimos ver o nosso herói que não viajou com aquele grupo. Como ele havia estado preso em um campo de concentração, ele parece que foi enviado para os Estados Unidos e passou por uma recuperação hospitalar e só chegou de volta para o nosso convívio algum tempo depois, que não mais me recordo de tanto tempo que faz, mas que chegou bem e com muita saúde, e até admirávamos o seu fardamento novinho em folha e as botas pretas brilhando que pareciam de verniz. Sem esquecer aquele logo que levava no braço com as letras FEB em letras maiúsculas e em baixo aquela cobra fumando. <br><br>E infelizmente a festa que programamos ficou só na nossa lembrança, pois ele chegou de improviso, mas nunca deixou de ser "O grande herói da nossa rua" Osvaldo Varella, casou, teve filhos e viveu por muitos anos.<br><br><br>E-mail: jfvilanova@gmail .com