Foi dia 31 de agosto de 1969. Era um domingo, dia em que o selecionado brasileiro ia jogar sua cartada final contra o Paraguai, para ver quem ia para a copa do mundo de 1970. Era um domingo que começava com um bonito sol. Logo pela manhã, havia a expectativa nervosa pelo jogo, e a expectativa pela vida de Cacilda Becker, que estava entre a vida e a morte. A grande dama do teatro brasileiro, tinha sofrido um aneurisma durante o ensaio de uma peça no teatro Bandeirantes, na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio. Resolvi naquele domingo, ir até a radio Jovem Pan, fazer uma visita a meu amigo Kalil Filho, que apresentava o programa show da manhã. Ao entrar no estúdio da radio na Avenida Miruna, o programa estava nos comerciais, e Kalil veio a meu encontro com a cara de quem comeu sapo pensando que era rã, e foi dizendo: Mario, sabe quem morreu? O presidente. Como ele era corinthiano, já fui logo dizendo: Sei. Foi o residente do Corinthians! Mario, não é brincadeira. Foi o presidente da república Arthur da Costa e Silva. Fiquei assim meio macambúzio. Mas me soltei. Porra Kalil, vim de casa até aqui e não ouvi nada nem no rádio e televisão. Morre um presidente a repercussão é enorme. Mario, a diretora da agencia nacional emitiu uma circular dizendo que a notícia não podia ser veiculada até segunda ordem.
O programa continuou, e eu me encarreguei de ficar ao telefone ajudando na captação de respostas que os ouvintes davam tentando acertar as perguntas feitas pelo programa. O estúdio ia ficando cada vez mais cheio, não só de ouvintes que vinham para bater um papo, já que no domingo tinha boca livre e quando isso acontece o que não falta é "morto de fome". Além de ouvintes, aqueles habitues, vinha chegando gente da própria rádio e da TV Record que já estavam sabendo da noticia da "morte" do presidente Costa e Silva.
Randal Juliano, e sua esposa Dardy Carlota, Paulo Machado de Carvalho, Helio Ribeiro, Narciso Vernise e Estevam Bourrol Sangiradi, locutor comercial e produtor do programa. Era uma tremenda angústia. Todos querendo saber notícias a respeito, e Brasília naquela mudes. Estando ao lado do dr. Paulo Machado de Carvalho perguntei a ele: Dr. Paulo, será que é por causa do jogo do Brasil que estão segurando a notícia? Ele meneou a cabeça afirmativamente, mas fez uma ressalva: pode ser também que estão tentando achar um bom motivo para dar alguma desculpa – já que as notícias vazadas diziam que tinha o presidente sido vítima de uma embolia. Mas já estavam falando na embolia 45. Isso porque o presidente vinha abrindo o caminho para uma possível democracia, o que era totalmente contra os militares radicais. O programa acabou no seu horário meio dia, e saímos todos sem saber de nada. Imagine nós estando dentro de uma emissora de rádio e não saber, em casa saberíamos menos ainda. A única coisa que sabíamos era que depois do jogo tudo viria à tona. E não deu outra. Logo que terminou o jogo as emissoras de rádio e televisão entraram em rede e vieram os três ministros militares dizer que o presidente da república tinha tido um derrame e estava sem poder dirigir a nação, e que seria substituído pelos três ministros militares do Exército, Marinha e Aeronáutica. Os chamados três patetas da época. Mesmo com os apelos da imprensa querendo saber de como e onde estava o presidente, nada vinha à tona. De repente uma foto dele meio de lado mostrado por todos os jornais e revistas. E a notícia de sua morte foi dado no dia 15 de outubro daquele fatídico ano de 1969. Até hoje não se sabe se costa e Silva morreu dia 31 de Agosto ou 15 de Outubro. Esta foi uma das muitas páginas tristes de nossa historia no período de 31 de março de 1964 a 14 de março de 1985. Um dia antes que Tancredo Neves daria o início a um calvário de 38 dias, a caminho da morte, sem poder tomar posse do cargo de presidente da república.