A estranha Vila Itororó

Não esqueço a primeira vez que reparei nela, subindo a Martiniano de Carvalho. O trânsito parou e pude ver as estátuas de pedra e os mascarões me encarando por detrás dos muros.
Pareceu-me um cemitério deslocado de lugar, ou um pedaço do Fórum Romano que houvesse desabado em São Paulo.
Voltei outras vezes, munido de câmera, para documentar que aquilo era mesmo real.
Visto da calçada, o cenário torna-se ainda mais fantástico: vê-se o solo, muito abaixo, e de lá sobem imensas colunas coríntias, ao lado de fontes boca-de-leão, há muito secas.
Contrastando com as imensas colunas, esgueiram-se minúsculos seres humanos. Tudo parece uma daquelas gravuras de Gianbattista Piranesi, com seu aguçado senso de surrealismo, a verdade com toques de pesadelo.
A Rua Martiniano de Carvalho, íngreme subida até a Paulista, mantém a dignidade de tempos mais amenos, com muito do seu velho casario resistindo à especulação imobiliária. E tem ainda uma linda igreja, à direita de quem sobe.
Mas em nenhum lugar dela esta parada no tempo é sentida como na Vila Itororó, que já era, creio, uma excentricidade na época de sua construção.
Li que foi erigida por um rico tecelão português, Casimiro de Castro, se não me engano. Usou materiais de um teatro demolido. Colocou ali tudo, as colunas, capiteis, mascarões, cariátides. Como num jogo de encaixe, ou um quebra-cabeças montado por um louco.
A casa vizinha, acima, também estranhíssima, parece fazer parte do conjunto, com gigantescas faces femininas em cada canto, com seus olhos vazios fitando com espanto as modificações da cidade. Faz parte de um cenário novamente teatral, de ópera barroca.
Castro fez ali a primeira piscina particular de São Paulo e lá dava concorridas festas. Depois tudo mudou, mas a mansão sobreviveu a todas alterações.
Um amigo, que passou a infância no bairro, morador que era de uma simpática vila que ali permanece intacta, conta que, durante algum tempo, a Vila Itororó abrigou o clube de futebol Éden Liberdade.
E era conhecida como "A Arca."
Foi isto e muitas coisas mais, até o que hoje parece ser um grande cortiço, locado e sub-locado por centenas de moradores.
Mas que extraordinário cortiço! Fico pensando se os seus habitantes, humildes e preocupados com o pão de cada dia, têm consciência do espetáculo único que os circunda.