Depois de uma semana corrida e com muitas idas e vindas do trabalho, escola e outros encontros chega o final de semana tão esperado por todos, o 'santo domingo. '
Lá em casa, minha mãe preparava o mais tradicional dos almoços para toda a família que poderia ser uma bela de uma macarronada ou mesmo um risoto de camarão ou, quem sabe, uma esplêndida lasanha de boas e generosas camadas regada ao mais tradicional dos molhos, o 'napolitano'.
Família reunida, o nosso despertar dava-se, impreterivelmente, às 07 h com as ordens expressas de meu pai para que fossemos à missa das 08h, na igreja da Consolação ou na 'catedral bixiguense' de Nossa Senhora Achiropitta, na 13 de Maio.
Por opção religiosa e lúdica e também 'alimentar', eu sempre optava por participar das cerimônias missais da igreja de Nossa Senhora da Consolação.
Explico: depois da missa, tínhamos as reuniões dos Congregados Marianos que, depois de uma lauta refeição matinal à base de café, leite, chocolate, bolos, pães e frios, íamos nos divertir com atividades esportivas, culturais ou musicais nas dependências da igreja.
Foi ali que dei início a minha vida musical e cultural, explorando os instrumentos (violão e piano) e pesquisando informações sobre a nossa história nacional e do mundo, através da farta biblioteca ali existente.
De volta para casa, a família estava toda reunida em uma espécie de tertúlia e com a participação de alguns primos, onde os mais frequentes eram a tia Ana, sua filha Gladys e seu neto Nenén que moravam em uma espécie de vila de muitas habitações na Rua Santo Amaro e ali antecipávamos a hora do almoço com agradáveis conversas e resumos do cotidiano.
Política, trabalho, futebol, economia, assuntos gerais, tudo o que fosse matéria de assunto era versado e conversado por todos.
Não raro, a nossa velha televisão da marca 'Semp', com suas '21 polegadas' em seu gabinete de 'marfim' sobre uma mesa do mesmo padrão, nos oferecia uma imagem nítida da antiga TV Record – Canal 7, com sua programação dominical.
Eu gostava de assistir o programa do Amaral Neto – Repórter. Passeando pelos canais (que eram só três, Record, Tupi e Nacional), já era quase hora do programa do Silvio Santos e também se aproximava o grande momento de todos: o almoço.
Mesa posta e todos reunidos, servimo-nos das maravilhas culinárias tão bem preparadas por minha mãe que, além do prato principal, tinha como acompanhamento a famosa 'salada russa' regada ao azeite de oliva, salada de alface ou agrião, acompanhando refrigerantes (meu pai gostava de Crush), cerveja ou malzbier da Brahma e sem se esquecer do bom e velho filão, fresquinho e crocante da padaria da esquina.
A sobremesa também era especial. Pudim de leite moça, doce de abóbora ou um 'romeu e julieta'. Frutas não eram descartadas.
O almoço seguia com as alegrias de sempre. Causos engraçados contados por todos, peraltices das crianças sendo reveladas, previsões para a semana seguinte, assim passávamos o dia de domingo.
Terminada as refeições, todos se dirigiam para a sala e, depois de um estimulante e digestivo cafezinho, o papo rolava sobre os mais diversos aspectos. Eu e meu irmão nos posicionávamos à frente de nosso pai, pois sabíamos que dali a alguns instantes a sua 'generosa' carteira se abriria para nos contemplar com Cr$ 5 (cinco cruzeiros) para cada um.
Alegres e radiantes pegávamos o dinheiro e saíamos em disparada para o velho cine Rex, na Rua Rui Barbosa esquina com Conselheiro Carrão, para assistirmos à matiné com algum épico do tipo 'Maciste' ou 'Hercules' ou, quem sabe um 'cow-boy' qualquer, mas, tudo era diversão.
No trajeto até o cinema, víamos nossos amigos e vizinhos reunidos às portas ou nas esquinas em conversas animadas sobre os mais diversos assuntos.
Carros passavam pelas ruas em um vai e vem tranquilo. Alguns amigos meus também estavam por lá e via também o excêntrico 'Marzinho' que, mesmo aos domingos, não dispensava um terno e gravata e de posse de uma máquina fotográfica 'kapsa', aquela que parecia uma pequena caixinha quadrada, se dirigia para algum recanto da capital para eternizar tal imagem.
Adentrávamos ao cinema com o 'kit-lanche' comprado do lado de fora, pois na bomboniere os produtos eram muito caros. Eu levava um tablete de 'Diamante Negro', pipoca doce, drops 'Dulcora' (embalados um a um) e assim estava pronto para a maratona cinematográfica. E ainda sobravam uns trocadinhos e dava para comprar uma caixinha de 'Mentex'.
De volta para casa, ainda encontrávamos os nossos parentes em animadas conversas, melhor ainda se o Corinthians tivesse ganhado o jogo (meu pai era corintiano) e, enquanto os adultos se distraiam, eu me juntaria com a 'molecada' do quarteirão para nossas brincadeiras de final da tarde.
Na televisão, Vicente Leporace e Clarice Amaral faziam par para apresentarem 'A Grande Gincana Kibon', programa que congregava as escolas para um embate cultural e revelava novos valores artísticos da juventude da época.
A noite já se anunciava e as preocupações para a nova semana era a tônica das conversas agora. Minha mãe já havia preparado um pequeno lanche para compensar o jantar, já que era costume não se jantar nas noites de domingo, mas, a farra era tão grande que sanduíches e alguma sobremesa que tenha sobrado do almoço complementaria a pequena ceia que vinha acompanhada de café fresco e do leite 'Vigor' (aquele da garrafa bojuda com lacre de alumínio).
Minha prima Gladys sempre trazia um ou dois bolos 'Pullman', nos sabores chocolate ou abacaxi e a festa tava arrumada.
Tia Ana, mãe de Gladys e avó do Nenén, meu primo, era uma pessoa de fino trato. Cozinheira de mão cheia, trabalhava para uma família de fina estirpe, em uma casa na Peixoto Gomide. Requintada nos finos modos da sociedade paulistana, 'arranhava' um francês que só eu entendia e se consumia fumando 'Continental' sem filtro através de uma fina piteira de madrepérola com ilhós dourados. Sentava-se sempre à sinistra da sala em uma poltrona de madeira, sempre altiva e soberana, apesar de seus l,55cm de altura, mas era uma figura única.
Já é noite alta no Bixiga e com ela o 'toque de recolher', pois no dia seguinte as rotinas recomeçariam. Trabalho, escola, arrumação da casa, compromissos, enfim, tínhamos um dever ou obrigação a ser cumprida.
Contudo, em nossa sala, os nossos convivas já se preparavam para seguir para seus destinos. A Gladys tinha suas obrigações como funcionária da extinta LBA do Tatuapé. Tia Ana regressaria para suas tampas e panelas da Peixoto Gomide. Nenén iria para a escola e depois passaria as tardes da semana inteira em minha casa. Meu pai voltaria à rotina de todos os dias na Agromotor, que foi uma concessionária da Willys do Brasil, lá na Rua Ana Nery, na Mooca.
Depois de os nossos parentes terem seguido para suas casas, a noite chega ao seu ápice e a televisão agora apresenta um programa cultural onde a dramaturgia é a tônica principal. Refiro-me ao bastante conhecido 'TV de Vanguarda' que era exibido pela TV Tupi – Canal 3.
Sempre uma história épica ou um romance shakesperiano como também algo de nossa literatura. Depois disso, dormir para despertar com o burburinho de uma manhã de segunda-feira, onde tudo começaria de novo, novamente, a mesma coisa, até o próximo dia de domingo no Bixiga.
E-mail: [email protected]