Sei do grande problema social que temos em relação aos menores de rua, mas aqui vai a visão de quem trabalhou dentro de uma Secretaria de Estado, foi voluntária na antiga Febem e viu resultados acontecerem – apesar de algumas pessoas ainda pensarem que programas proporcionados pelo governo são só politicagem, ou talvez só uma gota d’água no oceano.
Aqui de longe consigo visualizá-lo na minha memória. Olha ele lá, com sua lona colorida em laranja e azul, bem no meio da Vila Penteado, situado na Avenida Padre Orlando Garcia da Silveira, na Brasilândia. Quando se avistava a lona do circo, logo se imaginava toda uma trupe de palhaços, acrobatas e malabaristas; enfim, toda a gama de personagens que povoam a nossa fantasia e que nos faz sorrir e relembrar aquela frase que sempre nos remete ao picadeiro: “Hoje tem Marmelada? Tem sim senhor”.
Contudo, olhando mais de perto, sentando-se em suas arquibancadas víamos um cenário diferente: no picadeiro, crianças e adolescentes que moravam no entorno, descobrindo um novo mundo, um mundo onde eles não eram meros espectadores e sim os que proporcionavam o espetáculo. É assim que descrevo o circo-escola "Enturmando", projeto da antiga Secretaria do Menor na época Quércia/Fleury, onde tive a oportunidade de trabalhar durante oito anos, entre 1986 e 1994, quatro anos debaixo da lona, e quatro anos na sede na Bela Cintra, como técnica em eventos.
Este era um programa bem interessante de complementação escolar embasada no conceito da arte-educação, em que se ofereciam oficinas culturais à população da região de baixa renda. Com atividades artísticas ambientadas numa lona circense, trabalhava-se, de forma lúdica, a auto-estima, a disciplina e a cidadania, além de oferecer um programa de orientação e encaminhamento para trabalho, com estágios em algumas empresas de São Paulo.
Proporcionando um cardápio variado (circo, teatro e artes plásticas), abria-se uma nova perspectiva para aquele público tão carente de recursos e informação. Participei de momentos únicos, como educadora na área teatral, presenciando meninos e meninas com uma presença magnética na suas dramatizações. Vi obras de arte confeccionadas por aqueles pequenos artistas, penduradas ao ar livre, numa exposição colorida que tremulava ao sabor do vento e enchia de alegria quem passasse pela rua ao redor do circo. Assisti crianças se equilibrando no arame, fazendo coreografias de se perder o fôlego no trapézio, saltos mortais e malabarismos.
Mas, nisso tudo, o que importava mesmo era a mudança interior que se notava gradativamente em cada participante, o que, na realidade, era o intuito do projeto. Muita gente boa deu aula nos circos-escola; contudo, não falo só da aula técnica de cada área, mas sim das aulas de como lidar com a vida, colocando à disposição valores que só se aprendem na convivência do dia-a-dia.
Sabem quem passou por lá?? Tina Rinaldi fez um ótimo trabalho administrativo, sempre ali, acompanhando todos os acontecimentos de perto. A área circense era coordenada pelo José Wilson, dono do famoso Circo Picadeiro, localizado na Avenida Cidade Jardim. Ele dispôs professores de trapézio, saltos, malabares, que ofereciam momentos de pura magia, o que amainava um pouco a dura realidade daqueles que lá freqüentavam.
Posso listar um número grande de colaboradores da época: querido palhaço Picolino, Sr. Roger Avanzi; os circenses da família Medeiros, oitava geração de circo; Família Sbano, dos Índios Comanches/Beto Carrero World; as Irmãs Botero, que hoje fazem parte do elenco do Cirque du Soleil, em Las Vegas; Elvira Gentil e o saudoso Laerte Morrone, que deram alma ao projeto, e tantos outros.
Me perdoem não citar todos os inúmeros artistas/professores que passaram por lá, todos do mesmo calibre e valor. Assim sendo, o Enturmando oferecia ferramentas informativas essenciais para a formação e o desenvolvimento sócio-educativo dos freqüentadores, uma pequena catapulta de preparação para a vida.
Utilizamos sim, o circo, para oferecer um leque colorido de novidades, para captar os olhos atentos e curiosos dos que se deixavam envolver por aquele universo. Era mais um chamariz para podermos fazer um trabalho real e preventivo, para que a vida na rua não fosse mais atrativa. Aprendi muito e ampliei minha existência, convivendo com aquelas crianças, trocando idéias e escutando relatos de uma dura realidade, com aqueles que eram meus companheiros e "mestres" no cotidiano do circo-escola da Vila Penteado.
Acredito que plantamos uma sementinha de esperança no coração daqueles moradores e freqüentadores do bairro. Me sinto mais que na obrigação de citar que muitos não seguiram o melhor caminho, me decepcionaram, escolhendo rumos que me entristecem só de pensar. Contudo, é com orgulho e real conhecimento que digo que muitos outros se encaminharam e acataram o melhor da vida, e hoje são pais e mães de família, trabalhando e honrando os seus deveres como cidadãos. Dentre estes, o Sérgio e o Flávio, que abraçaram a carreira circense como modo de vida e viajam pelo Brasil e exterior.
Finalizando, ressalto que são só lembranças de uma antiga funcionária, mas que ainda o coração bate forte só de lembrar daquele tempo, de cada sorriso, olhar, abraço e aceno que recebia daquelas crianças. Sem dúvida, adquiri uma experiência sem par; fiz, sim, parte desta trupe de artistas da vida. Debaixo daquela lona, vivi momentos indescritíveis com meus amigos/mestres. Abriguei meus sonhos lá, cultivei-os, não concretizei todos eles, mas com certeza trago na minha bagagem esta experiência. E ainda carrego serragens na veia lá do circo Enturmando Vila Penteado. E tudo isto, afirmo, não é marmelada não!
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