Os Pichadores da Cidade

Houve um momento em que as pichações na cidade de São Paulo eram puro emporcalhamento. Era o total desrespeito à propriedade e aos seus donos. Não se conseguia, de forma alguma, impedir que os pichadores sujassem a cidade, seus viadutos, suas casas comerciais, portas e portões. Era só rabisco, simulação de letras e códigos só compreendidos entre eles. Aí surgiu Basquiat nos Estados Unidos, um pichador elevado à categoria de artista.

Basquiat sujava a cidade, mas com rabiscos de outra qualidade. Dos rabiscos, passou a desenhos emblemáticos e contestadores, de uma forma de sociedade que só desumanizava seus moradores. No Brasil, a pichação começou a mudar, saindo do puro emporcalhamento para uma forma de desenhos e mensagens de outra categoria.

São Paulo e as grandes cidades do Brasil oferecem bons espaços para este tipo de trabalho. As escolas de ensino Fundamental e Médio passaram a dar espaço para seus alunos picharem paredes e produzirem mensagens inter e extra-grupais. A pichação tomou o nome de grafite e as coisas começaram a melhorar. Ainda convivemos com os emporcalhadores puros. Às vezes, fico pensando o que passa por suas cabeças, se é que as tem.

Este assunto chamou a minha atenção e resolvi deixá-lo registrado neste site, quando há alguns dias li a notícia de que a Prefeitura de São Paulo cometeu mais uma vez o erro de apagar, com tinta branca ou cinza, painéis de artistas que vêm fazendo história na cidade. Esse time de grafiteiros vem sendo financiado, há alguns anos, por multinacionais e instituições estrangeiras e chegou às salas de museus e galerias de arte.

Neste momento mesmo, há uma exposição externa, na fachada da Tate Modern, na Inglaterra, sobre a "Street Art", onde os brasileiros Gustavo e Otávio Pandolfo, os gêmeos e Francisco Rodrigues, o Nunca, aparecem.

A Prefeitura de São Paulo, reconhecendo o erro, chamou para uma reunião alguns destes expoentes grafiteiros, principalmente os que tiveram seus trabalhos apagados: Nina Pandolfo, os gêmeos, Vitché e Herbert Baglion. Era um painel de 680 metros, que cobria a Avenida 23 de Maio. A empresa contratada pelo programa Cidade Limpa, sem saber o que é arte e o que não é, passou tinta cinza em tudo.

O Prefeito encomendou outro painel ao grupo, no mesmo espaço. Andrea Matarazzo acha que uma forma de cuidar deste problema seria a elaboração de uma lista dos lugares permitidos para este tipo de arte.

Claro que muitos de nós, autores deste site, convivemos próximo a nossas casas com esta “Street Art”, e, por isso, vou indicar alguns lugares onde se pode observá-la.

Cambuci, local de vida dos gêmeos e onde eles começaram sua arte. Grandes painéis na Rua Lavapés com a Justo Azambuja. Há também trabalhos de Nina Pandolfo, casada com um dos gêmeos, e do Nunca. Outra obra, o Gigante Amarelo, está na convergência da Justo Azambuja com a Silveira da Mota. Na Rua dos Alpes, há um trabalho de Vichté e Jana Joana, na casa de número 459.
No Minhocão, próximo à Barra Funda, há um trabalho de Tinho, Valesca e Adan Neate (inglês). Na Liberdade, há obras nas Ruas da Glória e Galvão Bueno e nas ruazinhas próximas. No número 455 da Rua Galvão Bueno, há uma linda carpa feita por Titi Freak e Ramón Martins.

Em Pinheiros, concentra-se uma grande quantidade de trabalhos, em diferentes pontos e ruas. O bairro é considerado uma grande galeria de arte a céu aberto. Pode-se começar o passeio pela Praça Benedito Calixto. Existem obras nas ruas João Moura, Cardeal Arcoverde e Gonçalo Afonso.

O Rio Tietê virou um grande local em São Paulo depois que Zezão começou a pintar suas entranhas. Zezão pinta os esgotos da cidade. Não dá para fazer visita por dentro dos esgotos, mas pode-se observar seus "flops", nome que ele deu aos desenhos em tons de azul, cheios de linhas e curvas, nas desembocaduras dos córregos. Um deles está no córrego do Tiburtino, próximo à Freguesia do Ó.

A Avenida Paulista, no túnel que a liga com a Avenida Rebouças, sempre foi um lugar de grafites da cidade, inclusive na alça que leva à Rebouças.

Esta é uma história que, sem dúvida alguma, já faz parte da memória da cidade. Achei importante falar dela, porque talvez a grande maioria da população passa pela “Street Art” e não sabe que hoje ela é considerada, pelos especialistas, como única, e até mais valorizada que a da Europa. É importante saber que já temos um bom grupo de artistas desse movimento.

Minhas informações estão na Revista da Folha, de 27 de julho de 2008, página 10.

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