Um chope no Joan Sehn

Levei querida amiga do interior para tomar um chope no Joan Sehn, antiga e tradicional choperia de São Paulo, em Moema, na Avenida Lavandisca. Chope bem tirado, no capricho, com queijos, salames e presuntos da melhor qualidade e um ótimo pão italiano. Experimente a tábua de frios do Joan Sehn. Imperdível.

Em certo momento, começamos a falar sobre o movimento das Diretas Já, que empolgara o país alguns meses atrás. Políticos comprometidos com o governo militar, entretanto, estavam em maioria, e no dia 25 de abril de 1984, rejeitaram a chamada Emenda Dante de Oliveira, para perplexidade e revolta do povo brasileiro.

Depois de alguns chopes, já entusiasmado, eu discorria febrilmente sobre a concentração no Vale do Anhangabaú, que reuniu mais de um milhão de pessoas, conforme cálculos insuspeitos da Polícia Militar. Ulisses Guimarães, F.H.C., Tancredo Neves, Franco Montoro, Mario Covas, Teotônio Vilela, artistas e intelectuais comandados por Osmar Santos ("é ripa na chulipa"), conhecido locutor esportivo, lá estavam, dando seus recados pelas eleições diretas e pela democracia.

Exatamente neste momento, interrompi minha arenga para uma inadiável visita ao banheiro. Os bebedores de chope ou de cerveja sabem do que estou falando.

Na volta, minutos depois, numa das mesas, vislumbro o craque Sócrates. Sento-me, e dirigindo-me à minha agradável companhia, com ar professoral, pergunto-lhe:
– Bem, onde é que estávamos mesmo?
– Você falava de Osmar Santos, locutor de futebol, democracia etc.
Certo de que não perdera o fio da meada sapequei:
– Pois é! Esse locutor deu grande apoio à Democracia Corintiana, liderada por Sócrates (ficou no inconsciente), Casagrande, Vladimir e outros, com respaldo de Adilson Monteiro Alves, diretor de futebol do Corinthians na época, dirigente moderno e com boa cabeça…

Antes que eu prosseguisse com minha falação, ela, espantada e atônita, interveio:
– Mancini, me desculpe, mas o que existe em comum entre Sócrates, Casagrande, Vladimir, e as Diretas Já, Ulisses, Mario Covas, Montoro etc. etc.? Do que é que você está falando?

Percebi, para minha vergonha, que havia pisado na bola. Pedi, para disfarçar, mais um chope, e tudo terminou com muito riso e descontração, como convém às pessoas que se admiram e se respeitam.

Naquela noite, entre um chope e outro, concordamos que no Corinthians, no Cazaquistão, na Escola de Samba Vai-Vai, no Brasil, ou em qualquer país em busca de liberdade, independência e soberania, a democracia ainda é, com todas suas imperfeições, o mais tolerável dos regimes políticos.

– Garçom, mais um chope, por favor!

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