Corria o ano de 1961. Em meu aniversário minha tia e minha avó vieram para ajudar a fazer o bolo e os doces. No sobrado em Pinheiros a sala era ampla o suficiente para umas 15 pessoas. Todos eram parentes, tios e primos e os pestinhas mais corriam e brincavam do que comiam. Também existia um ritual rígido com horário para cumprimentos, receber os presentes mostrá-los a todos e havia o tempo certo para apagar as luzes e entoar o conhecido "Parabéns a você".
As mulheres da família exibiam aqueles “cabelões” tipo "bolo de noiva" e vestidos muito apertados na cintura, colar e brincos de pérolas. Algumas vinham com bolsas enormes ou "frasqueiras", acho que era esse o nome.
Quase todos vinham de ônibus, pois quase ninguém tinha carro. Um fusca era símbolo de muita riqueza. Meu pai Ernesto, recebia os convidados homens e já os chamava para o quintal ou quartinho de despejo para mostrar ferramentas, tralhas de pescarias, fotos e também descia uma “latona” de metal redonda onde guardava vários tipos de fumos de rolo, onde ele destacava muito um tal de "fumo goiano"; as discussões giravam entre a qualidade de ser forte ou fraco para fazer os tradicionais cigarros de palha. As palhas também eram objeto de longas explanações que envolvia a cor, a textura e sua hidratação; eu não entendia nada daquilo mas prestava muita atenção pelo privilégio de estar na companhia dos adultos.
E depois da cantoria de praxe e de apagar as velas, dedicávamos algum tempo para os doces, gelatina de morango, que não podia faltar e o refresco de groselha, pois rendiam mais do que os refrigerantes. Eram aspectos e sabores que não vivenciamos mais. Nem picolés de groselha encontramos hoje em dia para comprar!
O bolo tinha um ritual diferente que era comer à vontade e oferecer para os parentes levarem no fim da festa; não sobrava nada. Tenho ido a festas em que o bolo é escondido após o apagar das velas. Acho isso muito estranho! Minha memória não me deixa falhar, e me conta que ganhei um caleidoscópio que usei por quase dez anos; uma gaita (todos meus amigos ganhavam), algumas peças de roupa (não tinham a menor importância) e o livro, "O último dos Moicanos" de James Fenimore Cooper, um mimo de tia Dalva e tio Renato Orsi, que li e reli incontáveis vezes.
Por volta de 21 horas quando a criançada já estava começando a dormir pelos cantos, os convidados se retiravam, mas não sem antes ajudar a mamãe Zita a arrumar a bagunça da festa. É hora, é hora, rá-tim-bum, Nestinhooooo, Nestinhooooo. As tias apertavam minha bochecha e diziam "Que bonitinho, seis anos! Já é um homenzinho!" E o dégas aqui querendo corresponder, "Obrigado a todos pela presença".
E-mail do autor: [email protected]