No ano passado, tive o privilégio de participar de um projeto destinado à terceira idade intitulado "Encontros para Resgate de Memória Autobiográfica", na Estação Ciência da USP, sob a coordenação competente e extremamente afetuosa da Professora Neuza Guerreiro de Carvalho.<br><br>Um dos temas para desenvolvimento era o deslocamento na cidade. Tive que recorrer a um caminho que fazia na infância, pois atualmente quase não se caminha: corre-se e sempre em uma condução em meio a um trânsito terrível e já famoso.<br><br>Quero compartilhar com vocês, amantes como eu desta cidade, esta memória tão querida, e também lamentar com todo o meu coração de paulistana o que está ocorrendo nesse "território situado entre a torre da Igreja do Sagrado Coração de Jesus e pouco além da torre da Igreja de Santa Cecília" conforme o texto do sociólogo José de Souza Martins e as angustiantes fotos de Zarella Netto (vejam no Estadão, caderno Aliás, de 25 de dezembro de 2011).<br><br>Como deixamos isto ocorrer? Chegar a esse ponto? Não é possível esperar mais tempo por uma solução e isso por amor à São Paulo; aos irmãos solitários e viciados; a esse bairro tão significativo na nossa história; aos cães fiéis que não abandonam seus infelizes donos; às crianças e jovens atraídos por essa miséria; aos pais, mães, filhos e amigos que sofrem e aos que, apesar de tudo, mantém uma atitude cristã nesse ambiente maligno. "Non ducor, duco"! Toda a minha esperança na força e empenho dos conterrâneos neste ano que se inicia!<br><br>Naquele tempo, em 1942, não me era permitido andar sozinha. Lógico, eu tinha apenas nove anos e morava no centro da cidade – Rua Barão de Campinas, última travessa da Avenida Duque de Caxias antes da Avenida São João. Tudo muito perigoso: o trânsito (!), gente desconhecida, golpistas, gente que "roubava" crianças, malandros…<br><br>Mas nesse ano tive que mudar de escola, pois a minha – o Grupo Escolar "Miss Browne" que ficava na Rua dos Guaianases – foi transferida para a Vila Pompéia e eu para o Grupo Escolar "João Kopke", na Alameda Cleveland, porque era o único mais próximo de casa.<br><br>Não havia possibilidade de me levarem até a escola – meus pais eram muito ocupados e eu já era uma "mocinha" de nove anos – e tive então que aprender o caminho que faria todos os dias para ir estudar. O horário de aula era aquele que chamavam "período da fome", isto é, das 11h às 14h. Minha mãe, preocupada com minha saúde, fazia para mim um almoço leve às 10h e preparava um lanche reforçado para levar.<br><br>Meu pai me acompanhou no início e, assim, com sua orientação, fui identificando coisas e guardando o trajeto: ao sair de casa, eu devia atravessar para o outro lado da rua a fim de evitar atravessar a Rua Ana Cintra e assim chegaria à Rua Helvetia (nome em latim que aprendi a pronunciar "helvécia"); virando à direita, prosseguiria em frente até a esquina da Alameda Barão de Limeira onde havia um magnífico casarão com jardim rodeado de grades, totalmente recobertas por jasmineiros (ah! como me lembro do perfume dos jasmins!). <br><br>Atravessando a rua, havia uma atração extra: uma sorveteria muito boa (preciso confessar que eu era absolutamente maluca por sorvete), mas eu só tinha ordem de comprar “unzinho” na volta das aulas e apenas uma vez por semana porque minhas amígdalas viviam inflamadas. Devia agora seguir em frente, atravessando a Rua Conselheiro Nébias e passando por casarões e palacetes, onde eu via sempre nas calçadas, os motoristas (que a gente chamava de "chofer"), devidamente uniformizados, polindo os carros à espera dos patrões.<br><br>Passava pela casa modesta do nosso médico de família, o amigo Doutor Tertuliano, que era também o pastor da Igreja Batista do Largo dos Guaianases e muitas vezes levava algum recado. Trocava de calçada e virava à esquerda na Rua dos Guaianases, orientada pela presença de uma grande árvore, lá ao longe, cuja ramagem ia até o outro lado e, de olho num cachorrão que me assustava muito e me fazia atravessar. Chegava, finalmente, à Alameda Glete, e agora não havia mais tanto problema: era uma reta só até o grupo escolar, mas com muita coisa a observar: lindos palacetes dos "barões do café" estavam nesse trecho e nas ruas ao redor e, na esquina da Avenida Rio Branco, estava o imponente Palácio do Governo paulista.<br><br>Mais um quarteirão e, atravessando a Alameda Barão de Piracicaba, eu chegava ao Largo Coração de Jesus, bonito, florido, bem tratado, tendo no centro a estátua de um bispo e com a igreja e o liceu em frente, em um conjunto que tomava todo o quarteirão: a estátua de Jesus, muito grande, de braços abertos, no alto da igreja, era um sinal de que eu já estava chegando ao meu destino, sã e salva.<br><br>Mais uma ruazinha para atravessar, a Dino Bueno, aí seguir em frente o último quarteirão, virar à direita e… Pronto! Em um lindo palacete com um enorme jardim estava ali, na Alameda Cleveland, a minha nova escola: Grupo Escolar "João Kopke". Cheguei…<br><br>Do outro lado da rua, a magnífica construção da Estrada de Ferro Sorocabana e o relógio da torre a indicar que eu estava no horário. Felizmente, após mais ou menos um quilometro de andança.<br><br>A volta já era mais tranquila, porque não havia tempo exato a cumprir. Quase sempre formávamos um grupinho de colegas e andávamos juntos pelo menos uma parte do caminho, deixando cada um perto de sua casa. Muitas coisas que descrevi aqui já não existem mais, devido à sanha do progresso: árvores, jardins, casas, palacetes…<br><br>Percebo, porém, pelas notícias que há muita gente empenhada em proteger esse patrimônio. Uma agradável surpresa foi saber, graças à Neuza – nossa inspiradora e orientadora neste resgate de memória – a história daquela árvore maravilhosa que era um ponto de referência importante na minha caminhada: a figueira da Alameda Glete. A luta dela para a preservação desse monumento vivo paulista merece toda a minha admiração.<br><br>Hoje, quando por necessidade, preciso ir até a essa parte da cidade, sofro com a deterioração que se vê por lá e espero sinceramente que sejam realizados todos os planos de restauração e revitalização. A história não pode ser apagada assim!<br><br><br>E-mail: [email protected]