O futebol arte do Brasil tem a nobre característica de unir nações. Como já dizia o diretor de cinema Pier Paolo Pasolini, “enquanto o estilo europeu de futebol era prosa, o brasileiro era poesia”, graças à descontração dentro de campo e ao tão velho e conhecido gingado de nossos jogadores. Quem vem de fora se assusta, mas logo se apaixona pelo esporte que mais une as nações. O bairro do Bom Retiro é um exemplo disso. Marcado pela mistura de nacionalidades, a região acolhe italianos, judeus, coreanos, gregos e bolivianos que vivem todos juntos, bem no meio do bairro que viu nascer um dos times mais tradicionais do país, o Corinthians. O Corinthians nasceu em 1910, no Bom Retiro, e desde essa época se tornou o time do coração do bairro, numa paixão pelo time que passa de pai para filho.
Gabriel Zalcberg Nisenbaum, de 23 anos, nasceu e cresceu no prédio Itapoã, localizado na nostálgica Rua Matarazzo, no Bom Retiro, que fica bem próximo à quadra da Gaviões da Fiel. A família judaica habitava a região desde a década de 1930, e nessa época já acompanhava emocionada os jogos do Corinthians. “Minha família é cem por cento corintiana, e até hoje estamos acostumados a nos reunir para ver os jogos”, orgulha-se Gabriel.
Na década de 1950, Iume Benjamim, tio-avô de Gabriel, era tão apaixonado pelo time que complicava a economia doméstica para comprar ingressos para ver os jogos do Timão com o sobrinho. A esposa era quem “driblava” as dificuldades para pagar as contas. Os italianos, coreanos, gregos e imigrantes de outras partes do mundo que chegaram com um pé atrás, aos poucos também foram se rendendo ao futebol. “Meu vizinho coreano era fanático pelo São Paulo, e como ele sabia que eu era corintiano, sempre vinha comentar os resultados dos jogos comigo”, diz Gabriel.
Quando a Copa do Mundo de 2002 começou, o cenário do bairro mudou completamente. Como ela foi realizada na Coréia e os jogos eram transmitidos na madrugada, a comunidade trocou o dia pela noite. O grito empolgado dos moradores, durante a noite, unia todo o bairro, que tinha um único objetivo coletivo: torcer todo junto, cada um por seu país.
Nas telas do cinema, o Bom Retiro também aparece como bairro multicultural unido pelo futebol. “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburguer e Cláudio Galperin, é ambientado no ano de 1970, quando o Brasil disputava a Copa do Mundo no México. Fugindo da ditadura, os pais de Mauro o deixam com o avô, e prometem regressar para assistir a Copa do Mundo juntos. A abertura dos jogos começa, mas a promessa não pode ser cumprida – a ditadura estava mais dura do que nunca. Assim se desenrola a história do garoto, que vive o conflito e a insegurança de, a partir de então, se integrar com a comunidade pela qual foi adotado.
No meio de tantas diferenças culturais, Mauro passa a se ambientar com outras crianças e com a comunidade graças ao futebol. Cenas como a em que Mauro torce pelo Brasil com os filhos de judeus, gregos e brasileiros e as das partidas de futebol de várzea mostram a importância do esporte na integração do garoto com a comunidade.
O próprio roteirista do filme, Cláudio Galperin, admite influência de sua infância no filme. “Cresci no Bom Retiro e muito das situações do filme são lembranças da minha infância”, afirma Galperin em entrevista ao site NetCinema. “Assim como Mauro, que teve de aprender a conviver em um mundo estranho, os imigrantes tiveram de aprender a dialogar com um novo lugar, uma nova pátria”. O diálogo entre esse abismo cultural foi o futebol.
A linguagem do futebol consegue desarmar preconceitos, diferenças culturais e religiosas, e é falada por milhões de torcedores apaixonados em todo o mundo. Não importa o escudo do time ou a cor da bandeira, a maior beleza que existe em torno do futebol são a grande união e as fortes emoções que ele proporciona.
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