Um anjo da guarda

Acredito que a maioria dos freqüentadores deste site deve se lembrar do Guarda Luizinho. Nascido Luiz Gonzaga Leite, em Transmarte, Paraíba, ele se tornou uma das personalidades mais queridas de São Paulo nas décadas de 70 e 80 por usar métodos inusitados para conscientizar as pessoas dos perigos do trânsito nas ruas da capital. Luizinho marcou época naquela que era uma das esquinas mais movimentadas do centro de São Paulo. Próximo ao Viaduto do Chá, fica o cruzamento da Avenida Coronel Xavier de Toledo e da Barão de Itapetininga, na frente do Mappin (hoje em dia, Extra) e do prédio da Light, que hoje abriga o Shopping Light. É o próprio Luizinho quem diz: "Eu não gostava de dar multa, acreditava mais na educação do que na punição para conscientizar o povo da importância de obedecer aos sinais e às leis de trânsito. E aquela esquina era uma dos locais mais perigosos da cidade, pois 1 milhão de pessoas passavam por ali diariamente. Acabavam acontecendo muitos atropelamentos". Suas brincadeiras consistiam em orientar o povo para que atravessassem a faixa corretamente, não permitindo que condutores de veículos parassem em cima da mesma, quando isso acontecia, ele abria as portas dos veículos e solicitava que os transeuntes passassem por dentro do carro. Quando um pedestre desavisado ou descuidado tentava atravessar com o sinal vermelho era barrado por Luizinho que, após uma aula de educação no trânsito, o presenteava com uma caveirinha ou uma miniatura de caixão. Uma vez um amigo meu foi protagonista dessa cena hilária, para deleite dos demais transeuntes. Mas toda essa popularidade não agradava os seus superiores. Como era época do regime militar a integração entre a população e os policiais não era bem vista pela corporação. "Todos os dias eu recebia uma advertência", lembra Luizinho. "Várias vezes eles me transferiam de posto, mas o pessoal fazia abaixo-assinados com 40, 60 mil assinaturas e eu acabava voltando para a esquina do Mappin". O tempo mostrou que a conscientização foi o melhor caminho para o sucesso do seu trabalho. "Em todos os anos em que trabalhei lá houve apenas um atropelamento e a vítima fui eu. Machucado, tive que cuidar para que as pessoas não linchassem o motoqueiro que me atropelou". Durante sua vida pública o Guarda Luizinho recebeu inúmeras homenagens. Entre elas, foi eleito Policial do Ano pela imprensa em 1975, 1976 e 1977, além do título de Personalidade do Ano pelo Rotary Clube nos anos de 1978 e 1979 na área de atividades humanas. Ainda em 1976 recebeu o Apito de Ouro na escadaria do Teatro Municipal de São Paulo. Hoje, Luizinho é comerciante, tem um bar e um restaurante em São Paulo, onde seus antigos fãs param para cumprimentá-lo. Luizinho insiste na idéia da conscientização e pensa em lançar uma cartilha para crianças sobre a importância de se obedecer as leis e sinais de trânsito. Ele quer ensinar, simplesmente como nos velhos tempos.