Aos poucos, as poltronas das salas, em geral grandes naquela época, iam sendo ocupadas. Mas, até que não chegasse o momento determinado, pessoas caminhavam lentamente por entre os corredores que separavam as alas de poltronas. Casais, grupos de amigos ou solitários. Uns à procura de um lugar para se acomodarem, outros, caminhando aleatoriamente, lançando olhares furtivos para alguém de quem pretendiam se aproximar no momento que considerassem oportuno.
Algumas salas, grandes e com teto alto, tinham mezaninos, denominados "pulman", cujas poltronas mais confortáveis do que as da platéia comum, e com uma visão privilegiada, justificavam seu preço um pouco mais alto. Carpetes ou tapetes impecavelmente limpos, luminárias modernas que produziam uma luz suave, decoração com pinturas modernas ou mosaicos e ar condicionado nas laterais e no teto, conferiam ao ambiente um toque de sofisticação e proporcionavam bem estar.
Nas salas simples a decoração era bem modesta, ou não havia. Tacos ou antigos assoalhos no lugar de carpetes, poltronas de madeira, com assentos retráteis, que às vezes faziam crianças bem miúdas ficarem entaladas, provocando risos de quem presenciasse a cena. Nestas, raramente havia ar condicionado e, se houvesse, nem sempre funcionavam. Ventiladores enormes procuravam dar conta do recado. Música ambiente havia em todas.
Antes de entrar na sala, uma passada na bomboniere para comprar um ‘dulcora’, alguns chicletes, uma caixinha de ‘mentex’ ou qualquer outra guloseima, era quase inevitável. No ar, o aroma apetitoso de pipoca estourada na manteiga. O público variava conforme o período do dia. Às tardes, nas matinês, predominavam os adolescentes e crianças. Por conta disso, o vozeiro, as andanças -e os corre-corres- na sala davam a impressão de se estar num páteo de recreio escolar. À noite, as sessões refinadamente chamadas de "soirées" eram permitidas somente aos maiores de dezoito anos.
Em determinado momento ‘Tuuuuummmmm… Duuuuummmmm…’ Era o sinal sonoro que se fazia ouvir, anunciando que dali a alguns minutos a sessão começaria. Não era um som seco. Assemelhava-se às notas baixas de piano, não era isso. Eu gostava muito de ouvi-lo e, por não saber como era produzido aquele sinal sonoro, era para mim, criança ainda, como um toque mágico. Mas o meu fascínio se prolongava com o apagar paulatino das luzes, como um crepúsculo, e com o abrir lento, como em câmera lenta, das cortinas.
Apressavam-se então, a se acomodarem, aqueles que ainda circulavam e, aos poucos, o silêncio era presente.
Nas horas que se seguiam, as imagens projetadas da tela eram capazes de provocar na platéia as mais diversas reações: gargalhadas, lágrimas, gritos de espanto, suspiros românticos, suspiros de alívio após momentos de suspense e, não raro, sono. Tudo dependia da trama. Nas matinês, o desempenho heróico de um personagem, derrotando implacavelmente o vilão, levava a platéia adolescente ao delírio, traduzido em gritos, assobios e aplausos.
Este era o clima das salas de cinema na minha infância e adolescência. Certa vez, tomei um jornal e fui direto "na parte de cinema", como chamávamos, para ver quantos cinemas havia em São Paulo. E surpreendi-me quando contei algo em torno de cinquenta. Todos de rua, nos bairros e no centro, pois ainda não tínhamos shoppings na cidade.
Fosse uma sala do centro ou no bairro, luxuosa ou simples, ir ao cinema era um evento; um ‘programão’. Os preços dos ingressos, inclusive com as meia-entradas para estudantes, faziam do cinema um lazer acessível a todos.
O cinema podia ser o prêmio por boas notas obtidas na escola, ou por uma semana de bom comportamento em casa, ou ainda, como não podia deixar de ser, um meio para encontros secretos.
‘Tuuuuummmmm… Duuuuummmmm…’ Luzes se apagando, cortinas se abrindo e o inicio de mais uma viagem que o cinema sempre proporcionou. Que saudade da época em que as salas de cinema estavam espalhadas por toda São Paulo!