Trabalhadores do dia a dia

Foooommmm! Foooommmm! Ou algo assemelhado era o som produzido pela cornetinha, um algo como um pequeno berrante metálico e que se ouvia na metade da manhã. Era o vendedor de fígado que na boleia de sua carrocinha baú, tracionado por um alazão assonorentado pelo fastio da rotina cruzava pelos recantos da cidade.

Nos idos anos de então, os passados anos 50, São Paulo era já possuidora de serviços prestados por pequenos empreendedores que viam possibilidades de atender ao público carente das facilidades de hoje.

A Vila Prudente, nesse particular, não era diversa, e a nostalgia de hoje nos conduz a recordar os tipos, e alguns curiosos estereótipos, pois que para as mesmas atividades e que se repetiam pelos rincões da cidade.

O dia se iniciava cedo, e aos primeiros clarões da alvorada, lá estava o padeiro também aboletado, em uma carroça, cultuando o silêncio, para não despertar indevidamente os moradores, deixando o pão fresco nas soleiras das portas ou nos beirais das janelas, ou ainda em pequenas caixas metálicas que algumas casas possuíam e que preservava o pão da umidade matutina, da decantada garoa paulista.

Também liam recados dos moradores sobre pedidos ou alterações de pedidos e apanhavam o dinheiro deixado em pagamento.

De modo análogo, e em horários próximos, passava o leiteiro deixando suas garrafas de um litro dos leites Leco ou União, adequadamente seladas com papel manteiga amarrado ao gargalo. O leite Vigor era mais moderno: vinha selado com um tampo de alumínio. Outros moradores que desejavam quantidades diversas de leite como meio litro ou um litro e meio, para tal deixavam suas leiteiras de alumínio para que o leiteiro vertesse nas mesmas a quantidade desejada.

As casas de pessoas de maiores posses possuíam armários gelados ou, como conhecemos hoje, geladeiras, que não produziam seu próprio gelo e, assim, também recebiam dos geleiros blocos de gelo de tamanhos apropriados que, colocados nas geladeiras, serviam para mantê-las refrigeradas.

Em algumas ruas mais privilegiadas, havia até a entrega do jornal matutino, espaço disputado principalmente entre O Estado de São Paulo, Folha da Manhã e Diário da Manhã.

Próximo à hora do almoço, já sem a preocupação com o silêncio, ouvia-se as cornetas, as buzinas, os apitos, e outros mesmos com cones a anunciar em plenos pulmões suas mercadorias. Eram os vendedores de verdura, legumes, dos vendedores de batata a vendedores de laranja e frutas em geral, onde se sobressaiam raridades difíceis de encontrar atualmente como tamarindo, jatobá e marmelo.

Havia então uma tácita pausa no horário do almoço. E no período da tarde mudava o perfil do comércio. Os afiadores de facas e tesouras, com uma banquinha móvel apoiada numa bicicleta, com um apito musical, faziam-se anunciar.

O consertador de panelas carregando pedaços de alumínio e um maçarico "Primus" para derreter o estanho e para marcar sua presença ferozmente, batia em uma frigideira com um ferro curvo.

Na rua onde eu morava, passava também um chinês que, aos nossos olhos de criança, devia ser muito idoso. Com um pequeno sino, anunciava seu produto. Era o vendedor de Beiju, que meticulosamente carregava seu produto dentro de um tubo de metal, quase do tamanho dele.

Com uma ruidosa matraca, o vendedor de quebra queixo bem pegajoso, com os pedaços de coco caramelizados, indescritíveis de bom! E machadinho só podia ser quebrado com um pequeno machado, daí o nome e que, de tão duro que nos fazia babar quando comíamos, apregoava seus produtos.

O "piruliteiro" que distribuía em um tabuleiro furado dezenas de pequenos cones de açúcar caramelizados, que eram havidamente disputados pela garotada por, além de serem gostosos, era o que de melhor se podia comprar com um tostão. Bom e barato.

Também o padeiro espertamente voltava no fim da tarde, agora tocando uma buzina que na verdade não passava de uma pequena corneta na ponta da qual ele afoitamente apertava uma espécie de bola de borracha, oferecendo pão d'água, suíço ou de banha em filão ou ainda em forma de bisnaga e, além disso, saciando os delírios da garotada ofertando as mais deliciosas formas de pão doce e sonhos recheados – creme ou chocolate. Que delícia!

Havia outros vendedores mais esporádicos, que davam as caras de vez em quando, como o vendedor de linguiça de porco, autêntica, de Carapicuíba e que aparecia uma ou duas vezes ao mês.

Mais raramente, abrolhavam os regatões, que batiam palmas nas portas das casas oferecendo cortes de "legítima" casimira inglesa, pois que, naqueles tempos, os senhores de posses mandavam confeccionar seus ternos em alfaiates e, por último, vinham vendedores de "finíssimos bordados da Ilha da Madeira", em geral ciganos, com um forçado sotaque português.

Eram outros os tempos. Curiosos, diversos, mas indiscutivelmente mais românticos e agradáveis.

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