Busco nos registros de toda sorte, informações sobre essa importante rua, no não menos importante bairro encravado entre a Liberdade e a Bela Vista. Pouco encontro. A maior parte do que procuro, está gravado em minhas memórias. Gravado pela força e, mesmo, dor das saudades que de lá ficaram…
Começava na Praça Carlos Gomes, no bairro da Liberdade, descia ao lado da antiga Chácara Itororó que, depois, nos anos 50/60, viria a ser o Estacionamento Itororó, propriedade da família Cerqueira César, que cruzava com a Rua Asdrubal do Nascimento e, terminava na rua Jaceguai.
Viemos a morar nesta rua em 1959 e de lá saímos em 1969, quando a prefeitura nos expulsou para construir a Avenida 23 de Maio, cujas obras já haviam sido iniciadas anos antes, lá pelos lados do Ibirapuera. Quando chegamos, já existiam os viadutos Brigadeiro e Dona Paulina. O córrego Itororó estava sendo canalizado.
O nosso passatempo de criança era entrar nas galerias buscando moedas. Sempre saíamos de lá com os bolsos cheios. Até velhas moedas do tempo do Império encontrávamos.
Entre o viaduto Brigadeiro e Dona Paulina, as goiabeiras estavam sempre carregadas. Era parada obrigatória, depois das aulas na Quinta Escola Mista da Bela Vista. Nesta época, a passagem sem calçamento por debaixo desses dois viadutos era conhecida como Avenida Itororó. Esta começava no Teatro de Alumínio e terminava na rua da Assembléia. Entre a Itororó e a Asdrubal do Nascimento estava localizado o serviço funerário da Prefeitura de São Paulo.
Na Rua da Assembléia existia um grande casarão amarelo, construído nos anos 30, exatamente onde terminava a Rua Asdrubal do Nascimento. Em 1959, já estava em decadência e era residência de muitas famílias. Ao lado deste palacete havia vários casebres, mais tarde demolidos. Ali, no terreno resultante da demolição, memoráveis pelejas se desenrolavam todos os sábados e domingos. Foi neste tempo que ganhei minha bola de capotão. Custou caro e havia sido comprada em suaves prestações. A fim de preservar tão caro patrimônio, o açougue local colaborava doando sebo, o qual era cuidadosamente aplicado às costuras, para que a umidade não viesse a apodrecê-las.
Eu era "grosso" e quando alinhávamos para fazermos os dois times, se eu não fosse escolhido, pegava a bola e ameaçava ir embora. Sem a minha bola não tinha futebol e a única saída era ser escalado para jogar por um dos dois esquadrões. Enquanto batíamos nossa bolinha, chupando Pirulito Pelota, rolava a Copa de 62 no Chile, e a galera vibrava escutando Brasil e Tchecoslováquia, país que, assim como a Rua da Assembléia, desapareceu do mapa-múndi.
Paralela à Rua da Assembléia, na Rua Jandaia, haviam sobrados de tijolos vermelhos, ao lado esquerdo de quem a rua subia. Anos mais tarde, quando a Prefeitura de São Paulo (administração Jânio Quadros) demoliu os tais sobrados, o Muro dos Arcos foi redescoberto. Acredita-se que este Muro, construído no século XIX nos tempos do Império, tinha a função de proteger contra enchentes.
O bonde Jardim Paulista linha 40, tinha o ponto inicial na Rua Asdrubal do Nascimento com avenida Brigadeiro. Eu o tomava para ir à Escola Mista Madre Maria Eugenia, dentro do Colégio Assunção no Jardim Paulista. Houve um outro bonde em minha vida, desta vez saindo da Liberdade para o Ipiranga, onde fui para estudar no Colégio Estadual e Escola Normal Alexandre de Gusmão, na Rua Bom Pastor.
Eu morava no número 33 da Rua da Assembléia. Havia uma grande mangueira no nosso quintal, fotografada por ninguém menos do que Claude Levi-Strauss em 1939, quando o local era ainda conhecido como Chácara Itororó. Com muito pesar, ainda produzindo mangas deliciosas, foi cortada em 1969 para dar lugar à pista de acesso da Avenida 23 de Maio para a Praça João Mendes.
Nesta área da cidade, moraram pessoas que, por um atributo ou outro, por uma gratidão ou gesto, ficarão na minha memória para sempre. O senhor Vinor Ribeiro, meu tio e também meu primo, que sempre, pacientemente, me ajudava em minhas lições de aritmética; Dona Nina e seu cachorro preto que a todos amedrontava; o Afonso, mecânico dos bons, trabalhava com qualquer tipo de carro; a Vilma que, discreta, exercia uma das mais antigas profissões da humanidade; a velha Brígida, mineira, que cozinhava como ninguém; a família de espanhóis, de muitos filhos, que morava no mencionado casarão amarelo; o Arthur Abraão que morava no 223 e que, em dezembro de 1959, quando chegamos de Piracicaba, nos ajudou alugando um quarto de sua casa por mil e setecentos réis por mês…
A Dona Ana Gonçalves, que tinha como filhos a Ester, a Tide, a Dora, o Jonas e que não media esforços para ajudar os menos favorecidos. Não posso esquecer a "Mulher do galo", sempre sentada na Praça Carlos Gomes, alimentando aquela criatura de cristas avermelhadas. Penso, mesmo, que era estrangeira, pois nunca a vi conversando com ninguém, com exceção de seu companheiro inseparável, o galinho.
Por falar em Praça Carlos Gomes, não posso deixar de mencionar o Cine Jóia da Colônia Japonesa. Quando o Yuzo Kayama trouxe a sua banda de Ye-Ye-Ye do Japão, lá marquei presença todas as noites. Eram os Beatles japoneses. Graças ao meu primo, que era técnico em alguma coisa, eu entrava escondido e lá ficava sentadinho perto da bateria, atrás das cortinas do palco.
Outro grande amigo era o Neguinho, motorista entregador do Frigorífico Tião Maia, que no final do dia, quando vinha estacionar seu caminhão, aparecia todo sorridente com um pacotão de carne que havia "sobrado" de suas entregas diárias. Comíamos carne e arroz como prato principal e feijão de vez em quando. Era preciso ficar numa fila enorme na Praça da Bandeira para conseguir um pacote de um quilo por pessoa. Era o racionamento. Nem as feiras-livres dele escaparam e o arroz ficou sem seu parceiro principal por muito tempo. Quando o feijão chegou, desapareceu o açúcar, prenúncio não só de cafezinhos, mas, também, de anos amargos pela frente.
Enfim, nesta parte da gloriosa São Paulo aprendi a ser gente, a respeitar os meus pais e amar meu país. Aprendi a respeitar gentes e bichos, pois de todos, sempre tivemos muitos em casa. Aprendi que tudo é possível quando temos Deus em nosso coração.
Desapareceu a Rua da Assembléia. As lições que ali aprendi, não! Continuam-me a valer, em todas as ruas pelas quais andei e andarei vida afora.
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