Toquinho e Vinícius no TUCA

Quem não conhece a batida de violão de Toquinho e a doçura da poesia de Vinícius de Moraes não está percebendo a primavera da vida. Mas foi no TUCA – Teatro da Universidade Católica – que tive o maior de todos os privilégios: vê-los cantar numa noite chuvosa de 1979.

O meu namorado (atual marido) comprou os ingressos e, para mim, era o maior de todos os presentes naquele momento. Ver o Vinícius? Meu Deus! Para mim, ninguém viveu tão plenamente a poesia como ele. O poeta de um amor maior, completo, "de tudo ao meu amor serei atento"… e que o amor "seja infinito enquanto dure". O Toquinho, um exímio violonista, impecável, beirando a perfeição, com toda a simpatia e afeto pelo "poetinha", cuja "vida era pra valer".

Mas aquele show deve ser visto e vivido em toda a sua abrangência. Em primeiro lugar, o espaço. O TUCA, dentro de toda a efervescência cultural da juventude universitária nos últimos suspiros da ditadura, representou muito. Foi o local da encenação da peça "Roda Viva", em que a polícia chegou para bater e bateu feio. Lá estava a Marília Pêra, por exemplo, que correu muito e, ainda assim, apanhou um monte. Quantas bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas ali contra uma juventude que queria democracia, a tão sonhada liberdade de expressão, a possibilidade do diálogo, a aurora.

Estudei em outra universidade, mas freqüentei aquela algumas vezes (embora eu não tenha sido a chamada "filha da PUC"). Numa das idas a São Paulo, fiz questão de levar o meu filho (que, obviamente, se chama Vinícius) para conhecer o local. Mostrei para ele a belíssima capela e, sobretudo, o TUCA, cujas paredes guardam segredos, gritos, sentimentos confusos de pânico, mas também a esperança, a criatividade, a irreverência, o sonho, desejo de vida e, claro, toda a indignação de uma juventude que teve seus melhores anos roubados pelo arbítrio. Ali foi um dos espaços possíveis para que a força de uma juventude sonhadora pudesse ter o palco garantido.

Mas o Vinícius e o Toquinho estavam lá, com o banquinho e a platéia cantando junto, comportada, de olhos fixos e aplausos quentes. "É que os momentos felizes tinham deixado raízes no seu penar… depois perdeu a esperança porque o perdão também cansa de perdoar".

Naquela noite, parece que o barulho da chuva era parceiro das batidas de violão do Toquinho, porque estava mansa e compassada. Percebi que a chuva também gostava de bossa-nova, porque ela soube muito bem nos abraçar, nos enxaguando de qualquer amargor da vida. Nunca a chuva foi tão minha companheira, tão sincera e bendita. Provavelmente foi um amontoado de lágrimas antecipadas, anunciando que, dentro de muito pouco tempo, em julho de 1980, o nosso poeta iria partir. No dia seguinte, o Jornal da Tarde anunciava que havia morrido a poesia brasileira.

Mas eu fiquei a imaginar o nosso poeta do amor demais brincando – como gostava – e cantando para São Pedro, que gostaria da irreverência, da leveza do olhar, da alegria do amor, do coração bonito e todos os anjos e santos sentadinhos, curtindo a bossa-nova, e o Vinícius num banquinho celestial, encantando o paraíso.

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