Meu vizinho Yanke

Yanke era o apelido dele, que era interpretado por nós como sendo seu verdadeiro nome. Na verdade, nunca ninguém se preocupou em perguntar como se chamava. Na certa, caso essa pergunta fosse feita, ele responderia que não se chamava. As pessoas é o que o chamavam, e fica o dito pelo não dito.<br><br>Por ser muito amigo de Cabeça de Porco, palavrão era o que mais falava. Quando estava com meu pai, a coisa era a mesma; só se comportava um pouco quando Dona Olga e Dona Orlinda estavam por perto. Para que saibam, Dona Olga era a esposa de Yanke, e Dona Orlinda, minha mãe.<br><br>Yanke, se louco não era, imitava muito bem. Porrada dava por qualquer coisinha. Quando de festa e “guardas”, era ele o maior mestre de cerimônias, onde a cachaça corria mais que água vazando dos canos da SABESP. E quando isso acontecia, nem imagine o que podia acontecer.<br><br>Dentre muitos loucos que a Vila Olímpia tinha, essa era a figura mais grotesca, que falava alto e todos ouviam a muita distância, sem ele usar o mega-fone.<br><br>Yanke era um dos muitos carroceiros que vendiam na rua e era chamado, dentre outras coisas, de “Ongares”, por ter descendência de húngaros – e na linguagem do povinho que habitava a Vila Olímpia, o H, era substituído pelo O.<br><br>Um dia, Piqui, outro carroceiro que vendia peixe, o viu depois de muitos anos e gritou: “Ei, Ongares, não morreu ainda?”. “Não. Enquanto sua mulher me ver, jamais morrerei. Ela me faz muito feliz!”.<br><br>(Para que saibam, Piqui, o Chico, era solteiro.)<br><br>Para Yanke não tinha dia triste. Era uma figura “sui generis”, estava sempre alegre, falante, e sempre ouvia indiretas que o levaria a encher a cara de alguém. Tinha uma mão que concorria com a mão do goleiro Oberdan.<br><br>Um dia, uma das muitas festas que ele fazia em sua casa. Era véspera de Natal, quando ele matava um porco que criava desde o começo do ano a pão de ló, para que ficasse bem gordo. Meu pai, então, disse a ele: “Yanke, tem um filho daquela dando em cima da minha filha, e, para completar, é mulato”. “Verdade Seu Ângelo? Me fala quem é que vou capá-lo”. E já estava com a faca na mão. Com ele era assim: oito ou oitenta.<br><br>Já nos anos 1960, ele estava tristonho. Coisa que era difícil ver nele. Estava eu tomando umas biritas no bar do Celestino, ex-mercearia Algarve, quando entra ele, Yanke, de cabeça baixa e olhos vermelhos. Apesar de bem mais novo do que ele, tinha uma certa intimidade em ser ousado. Afinal, ele me conhecia desde pequeno e gostava muito de mim. Depois outra: eu era filho de Seu Ângelo, seu amigão que tinha falecido pouco tempo antes.<br><br>No que ele entrou, já fui falando: <br>- Está com os olhos bem vermelhos, hein! Cuidado, a “mardita” mata aos poucos. Pára de beber que ela vai te cozinhar o fígado!<br>- Que nada, Mário. Estou é chorando muito. Você soube que o Zinho foi preso?<br>- Sim, soube. Ele “queimou” um cara que chutou a porta do auto-elétrico dele na Avenida Santo Amaro, em frente ao Santa Paula. Acho que era um alemão.<br>- Já gastei os tubos com advogado e vou fazer de tudo para tirá-lo de lá. Aliás, vou visitá-lo domingo na Casa de Detenção, quer ir comigo?<br> <br>Quando o domingo chegou, com céu de Brigadeiro em que dava gosto jogar futebol, até me esqueci do Alvorada, clube onde eu jogava ali no campo da Portuguesinha, na Rua Alvorada. Fui eu, o Yanke, Nardo, seu filho e mais uma pessoa. Era já o ano de 1968.<br><br>Lá chegando, uma tremenda fila para entrar. Na porta, tinha que mostrar documento. E o documento que eu tinha era carteira profissional, o documento mais exigido. Carteira de identidade ainda não tinha. E ter para quê? A polícia, principalmente a gloriosa guarda civil, dizia que qualquer vagabundo tinha RG; portanto, o documento de maior valor era a carteira profissional. Esse documento eu tinha nos anos 1950, portanto, a foto era bem diferente de como eu estava no momento. Pronto, um idiota que estava vendo os documentos na porta cismou que aquela foto não era minha e quis me amedrontar, dizendo que eu já ia ficar por lá mesmo. Foi quando Yanke se tornou meu ídolo de verdade. Botou a mão no ombro do “farizeu” e disse: “Xará, nesse moleque eu boto a mão no fogo. Conheço-o desde que nasceu, tá!”. Pronto, foi dar meio passo e já estávamos portão adentro da casa de detenção.<br><br>Todos os objetos que se tinha no bolso era para deixar na portaria, principalmente dinheiro. Era a semana que antecedia o natal, daquele que foi considerado o ano mais triste daquela década. Uma música típica de Natal estava sendo tocada repetidamente, o que dava o tom de maior tristeza no presídio.<br><br>Enquanto Zinho não era trazido de sua cela, tive contato com vários presos, cada qual contando seus problemas, e todos faziam questão de dizer por que lá estavam. E não pensem vocês que eles se lastimavam por lá estarem. Falavam com todas as letras como tinha sido o fato que os levou para lá: “Ah, meu, o cara tinha me enchido o saco e mandei ver. Ou, melhor mandei ele para os quinto dos infernos”. Outra já dizia: “Queimei aquele filho daquela. Quem mandou ele “traçar” minha mulher?”. Obs.: Quando o indigitado traçou sua esposa, ele estava guardado lá por roubo. Ainda não existia relação intima nas prisões.<br><br>Quando chegou o Zinho, foi uma festa por parte do Yanke. Contava a ele como estava indo o processo e quando ia haver uma audiência e também quando o advogado ia lá para orientá-lo sobre que dizer.<br><br>Para que Yanke ficasse mais à vontade com seu filho, fui dar umas voltas pelo pátio da casa de detenção. Para minha surpresa a Vila Olímpia tinha outros representantes fora o Zinho. Lá estava Natanaél desde 1959, um dos primeiros, senão o primeiro, a matar chofer de praça.<br><br>O Nego, que com Natanaél foi preso pelo mesmo crime, tinha se suicidado (enforcou-se) – desgosto por ter sido estuprado por outros presos. Não conversei com Natanaél por já ter tido atritos com ele quando em liberdade na Vila. Era recalcado por ser muito levado desde criança; ficava acorrentado por seu pai no pé da mesa. Foi manchete de jornal depois de uma denúncia de vizinhos.<br><br>Mais umas passadas e vejo outro vila-olimpiano fazendo “estágio” na casa de detenção. Era Birolho, que tinha esse apelido por ser zarolho. Vistas meio esquisitas.<br><br>Não demorou muito e Zinho estava solto. Quando o vi, dei-lhe conselhos, para que não tornasse a fazer besteira. Mas pau que nasce torto morre torto. Ele foi mais além e se tornou pior do que era, e um dia depois de algumas refregas com pessoas que militavam com tóxicos, foi friamente assassinado quando estava num bar. Quem fez o “serviço” passou por lá, Santo Amaro, deu cinco ou mais tiros à queima roupa e se mandou. Zinho foi enterrado no cemitério Campo Grande. Yanke, uma das figuras carimbadas da Vila Olímpia, pouco depois também veio a falecer. A Vila Olímpia era um território efervescente.<br><br>e-mail do autor: [email protected]