No dia 31 de agosto de 1964 perdi a mais preciosa pessoa de minha vida, minha mamãe Zita. Contava com dez anos e recordo a fisionomia de desespero de meu pai, que havia saído para buscar um médico e alugar um sistema de oxigênio e ao voltar, já a encontrou sem vida. Após 14 anos de casados estava sozinho o Ernesto da Therezinha com três filhos para cuidar; as idades eram 3, 10 e 12 anos.
Fui para a casa de primos na mesma rua em que morávamos a José Maria Lisboa. Fui acolhido naquele dia por Laércio e Lurdinha e seus filhos Mara e Júnior que me olhavam de modo esquisito e eu com dez anos não entendia a dimensão de perder uma mãe. Mas nossa vida não ficou caótica, pois meus avós paternos assumiram nossa casa e a nossa educação, deixando o apartamento na Rua Batista Cepelos na Aclimação.
Meu pai se mostrou irreconhecível, desligado, durante quase seis meses, muito focado em seu trabalho, até que tomou a decisão de deixar São Paulo para sempre. Naquele período de tristeza do luto até nossa mudança, recebemos o apoio da família e eu, em especial, ganhei toda a atenção e afeto de meus tios, Renato e Dalva que moravam na Vila Mariana. Eles eram casados há pouco e não tinham ainda filhos.
Ela é irmã de minha mãe e entre as suas habilidades está a música, tanto no piano como no canto como corista do Teatro Municipal. Meu tio trabalhou até a aposentadoria no Banco do Brasil, onde conquistou imenso respeito dos colegas. Aqueles tempos tornaram mais leves à dor da perda e os finais de semana em que lá passava quase tudo era planejado para minha satisfação. Tenho a lembrança de passeio a um clube, e também dos dias que passava na biblioteca da Vila Mariana onde minha tia trabalhava.
Lá descobri que existia uma estante só com revistas e gibis e fiz a minha festa. Todo dia tinha uma novidade depois do jantar, um dia era o dominó em outro o banco imobiliário. Tinha também o jogo do ludo real, trilhas e bingo. Nem sei contar das comidas maravilhosas que experimentei e me recordo de um aliche espetacular. No período de férias aprendi um pouco de música, mas o curto tempo não permitiu que eu desenvolvesse.
Com certeza o que aprendi para o resto de minha vida foi que existem pessoas que exercitam a misericórdia. Não abrem mão de demonstrar o seu amor, mesmo sem ter obrigação disto. Já adulto percebo o que faz o exercício de uma fé sólida, de espíritos inspirados em Deus. Num período crítico de minha vida, posso dizer sem culpa que fui feliz graças aos tios queridos.
Eles se colocaram no lugar de meus pais e mais tarde realizaram seus sonhos com a vinda de três filhos e com a competência em educá-los. Obrigado tios!
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