Quando ainda morávamos na Rua Padre João, não me recordo como minha mãe fazia sem geladeira para guardar os alimentos perecíveis como o leite, a carne, as verduras, os legumes, etc., mas tenho uma vaga ideia que este local seria o lugar mais fresco na cozinha, que era embaixo da pia.
Em casa, a primeira a acordar era minha mãe, que rapidinho nos trazia o pão e o leite, e, após o café da manhã, saia para fazer as compras diárias, como ir à quitanda e ao açougue, igual a todos no bairro da Penha, que saíam para comprar a mistura do almoço e do jantar.
Esta rotina durou até ganharmos nossa primeira geladeira. Ela não tinha marca porque quem a construiu foi nosso querido tio Américo. Ele havia se tornado um especialista em construir as geladeiras para as casas de comércio, como as padarias e os açougues, e aquelas geladeiras abertas que seriam colocadas nos supermercados que estavam começando a ganhar espaço.
Com todo conhecimento que possuía, nas suas horas de folga, montou um armário metálico bem grande com prateleiras, uma gaveta e uma porta isolante com um trinco parecido com os usados nas portas das geladeiras de bares. Neste armário, havia também um lugar de proteção reservado para o motor, mas com pequenas aberturas, para a circulação do ar. Pintou-a toda de branco, primeiro com a pistola; depois, para o acabamento, usou o pincel e um rolinho; fez a ligação elétrica e pronto, começou a funcionar.
Dentro, havia um congelador aberto onde formavam as placas de gelo. Nas prateleiras, minha mãe colocava os alimentos, na gaveta os legumes e verduras, e até sobrava espaço para colocar também as frutas. Ela era muito grande e ocupava um espaço enorme na cozinha, mas ficou tudo mais gostoso de saborear, as frutas, o suco e água; tudo bem geladinho.
Lembro-me de uma peripécia que fiz para enganar meus amigos da rua, coloquei um tomate no congelador para testar. Claro, ele ficou congelado, então saí na rua lá de casa para exibir aos meus amigos, que, curiosos, perguntavam o que eu estava comendo e eu, com toda a pose, dizia: “É uma ameixa”. Olha só que maldade, enganar meus amigos, mas foi por pouco tempo; depois eu ri e contei toda a verdade, inclusive sobre a geladeira que havíamos ganhado do tio Américo.
Esta geladeira doméstica aliviou minha mãe, que agora tinha um lugar adequado para colocar os alimentos. Assim, ela podia abastecer nossa casa com alimentos perecíveis por períodos mais longos, reduzindo sua ida aos armazéns, quitandas e açougues.
Com o passar do tempo, meu tio Américo aprimorou-se no seu trabalho, então as construções de suas geladeiras também acabavam ficando mais modernas. Incrível como ele gostava do que fazia, e por esta razão ele era muito requisitado e viajava por vários estados do Brasil para montar enormes geladeiras nos supermercados.
Ficamos por muito tempo usando a geladeira construída por ele, mas, como nada é eterno e tudo se transforma, chegou um tempo que meu pai aposentou a geladeira do tio Américo e comprou a primeira geladeira de marca, agora com um congelador fechado, com um design mais bonito, sem ocupar tanto espaço na cozinha e com um motor muito mais silencioso.
O tio Américo morou na Rua Francisco Marengo, no Tatuapé, e depois se mudou para a Ponte Rasa, onde terminou seus dias. Deixo aqui meu agradecimento por tudo que fez para ajudar meus pais e a todos seus sobrinhos com suas geladeiras domésticas que nos serviu por um bom tempo, enquanto meu pai ainda não tinha condição de comprar as originais. Ele, além de ser meu tio, era também meu padrinho de batismo e deixou saudades. Que Deus tenha compaixão por toda sua bondade enquanto passou por aqui e reserve um lugar para sua alma no verdadeiro amor e na luz eterna.