A minha juventude foi totalmente ligada a Escola Técnica de Comércio Frederico Ozanan, que, depois de anos, mudou seu nome para Colégio Comercial Frederico Ozanan. Era uma grande promotora de ensino, mas por sua estrutura mais humilde, enquanto estabelecida na velha Praça Franklin Roosevelt, foi rebatizada, por pessoas malévolas e faladeiras, como Boite Ozanan e outros apelidos pejorativos.
Para mim e todos os demais alunos, essas maldades não importavam e nós continuávamos dedicando à escola todo o carinho possível e recebendo dela, lógico, todo o conhecimento que levaríamos como bagagem no resto de nossas vidas. Lógico que sendo uma escola popular, tínhamos, também, atividades extracurriculares bastante variadas.
Faziam parte de nosso dia escolar (o meu em particular muito extenso), além do período de aulas ministradas por grandes professores tais como Marcelino, Benevides, François, Galrou, Clarice, Cipriano, Donato, Quirino, Kasseb, Ytiro, Duarte, Vinicius, João Batista, Floriano, Ribeiro, Testa e muitos outros que a velha memória não consegue buscar, tínhamos o Grêmio que, por virtude dos vários períodos de aula (matutino, vespertino, especial e noturno), era dividido em duas entidades absolutamente independentes, o GEFO (Grêmio Estudantil Frederico Ozanan) atendendo as atividades esportivas dos alunos do matutino e do vespertino, e o GAFO (Grêmio Acadêmico Frederico Ozanan) atendendo as atividades específicas dos alunos do vespertino e do noturno.
Com a orientação constante do Professor João Batista Negrão e de seu fiel escudeiro, o secretário Waldemar Ferreira, os dois grêmios tinham vidas independentes e, também, unificadas quando necessário, porém totalmente pacíficas e sem qualquer rivalidade. Muitas de suas atividades eram promovidas de comum acordo.
O corpo discente da escola estava sempre envolvido em outras atividades, além das estudantis, assim tínhamos o GATO (Grupo Amador de Teatro Ozanan) criado por quem rabisca esta memória, a FANFO (Fanfarra Frederico Ozanan) que participou de muitas atividades cívicas e estudantis, competindo com outras grandes fanfarras da época e ganhando vários prêmios.
Ora muito bem, depois deste enorme preâmbulo que serviu de preparo ambiental dos queridos leitores, vamos, por fim, registrar a memória objeto deste texto.
Como acontecia em todas as escolas da época, no Ozanan também tínhamos uma cantina explorada comercialmente. Em um texto mais antigo eu cheguei a comentar do Chico, que era o antigo proprietário da Cantina e que usava de um mural com as páginas de O Cruzeiro, com as piadas do Amigo da Onça (Péricles), para promover, mais ainda, a integração dos alunos do Ozanan. Depois, tendo o Chico vendido a cantina, o proprietário era um senhor mais carrancudo, de nome Saul, que não se interessava em fazer maiores amizades. Queria vender e receber os parcos cruzeiros que lhes eram devidos.
Evitava, de todas as maneiras o “fiado”, diminuiu drasticamente a quantidade de recheio dos sanduíches e passou a encher e vender garrafinhas de Coca-Cola com água e groselha.
Ora muito bem, uma vez que o refresco era geladinho e muito mais em conta, teve aceitação imediata entre os consumidores. Ciente do sucesso, o velho Samuel lançou uma nova produção, nas mesmas garrafinhas de Coca-Cola, passou a substituir a água por leite e misturar com o vermelhíssimo xarope de Groselha.
As vendas continuaram em crescente atividade. A única exigência do velho Samuca era que os consumidores devolvessem as garrafinhas usadas, para que fossem preenchidas, coisa que muitos não se incomodavam em atender e, assim, largavam, vazias, ao longo do pátio da escola e, então, lá ia o Samuel a recolher garrafinhas depois dos períodos de recreio dos alunos.
Foi assim que, consumidores mais atentos, começam a observar as atividades do cantineiro e descobrir coisas que não eram nada agradáveis.
Começaram, então, a espalhar as referidas descobertas pelo colégio em uma campanha de pequenas frases, tais como: “O Samuca não lava direito as garrafinhas de leite com groselha usadas”, ”O Samuca mistura o leite e a groselha tampando o gargalo com o mesmo dedo que conta o dinheiro recebido”, “Onde será que o Samuel costuma usar o dedo operário?”.
Pronto, a campanha difamatória estava lançada e tomou vulto, a direção da escola constatou sua veracidade e o Samuca foi exonerado das suas funções e teve de vender a Cantina sem o lucro que almejava receber.
Essas dedadas vieram hoje à minha memória e achei por bem dividi-las com vocês. A propósito, quem está servido de uma dose de leite com groselha?