Tia Norma – que tem a cara de São Paulo

Infeliz daquele que não tem uma tia Norma. Aliás, eu já disse isso a ela algumas vezes. Na verdade, é minha madrinha, que me crismou na catedral ainda nos anos 60, quando a gente andava pelo centro de São Paulo com mais facilidade. A gente chamava o Centro de Cidade… Depois da crisma, a minha mãe e eu fomos comprar umas roscas doces na confeitaria Romagnolla, na Praça da Sé. Hoje a padaria se chama La Romana. Naquele tempo, as roscas eram bem cheias de açúcar e de creme, uma maravilha…
Mas a tia Norma é tão especial que é impossível arrumar um adjetivo simples para ela.
Primeiro: ela é descendente de portugueses, nascida em Santos há mais de 80 anos. Por aí a gente já começa a perceber um pouco de como a história do Brasil foi construída. Tem paixão pelo D. Pedro I e é dona de um amor à pátria sempre muito visível e muito quente. Sempre capaz de se emocionar quando se executa o Hino Nacional e declama, com facilidade, a Canção do Exílio, de Gonçalves Dias. Apaixonada, como eu, pelo Érico Veríssimo, comentava, pelo telefone, com a minha mãe e comigo sobre alguns personagens e comentava tudo com emoção.
Apavorou-se sinceramente ao ler, nos anos 70, algumas obras do escritor da antiga União Soviética, o prêmio Nobel Alexander Soljhenitsin, que denunciava o totalitarismo, as atrocidades cometidas pelo Estado contra os opositores, o inferno das prisões políticas. Ela acreditava piamente que as torturas físicas e psicológicas aconteciam só em países socialistas. Ela jamais imaginou que a ditadura no Brasil fosse recheada de abusos, de barbáries de todas as formas, para os gostos mais sádicos do mundo. Ela pensava que era só lá fora, com os comunistas. Quanto a isso, a tia Norma nunca se emendou. Ela, na ditadura, achava o Brasil o máximo, e eu quase morria de vontade de contar pra ela algumas coisas… Mas eu sabia que politicamente a gente não se entenderia. Jamais, como até hoje, mas o meu amor por ela é tão grande, que às vezes eu finjo que não escuto as suas considerações nesse particular.
Sempre com uma boa conversa, divertida e sempre pronta para a vida, a tia Norma tem uma pequena biblioteca particular e tem um lindo brilho no olhar. Mesmo agora, com idade mais avançada, ela conversa com muita facilidade com as pessoas na rua, e provoca admiração. Leva um saco de balas, oferece para o motorista do ônibus que, aliás, pára para ela subir e descer fora do ponto. Tia Norma conversa com a médica, leva presentes, aliás, a tia Norma adora dar presentes e palpites.
Num verão terrível em São Paulo, alguns trabalhadores da Telefônica estavam pendurados no poste na porta da sua casa. Ela olhou para eles candidamente, com pena deles por aquele suor escorrido, daquele sol absurdo e perguntou – ela fala alto -: “ei, vocês querem um Tang?”.
Eles olharam e só responderam: “se a senhora quiser dar, a gente aceita”. Então ela contava que preparou uma jarra com o Tang laranja e bastante gelo e levou numa bandeja, com os seis copos, e eles adoraram.
Passaram alguns dias, lá estavam os homens trabalhando de novo. E ela com o telefone mudo. E nada de o telefone dar sinal. Ela não teve dúvida – e nem se lembrava mais do Tang – “ei, vai demorar muito? A minha nora vai telefonar lá de Caxias e eu quero atender!”. Lá do poste, um dos homens olhou para baixo e só perguntou: “a senhora não deu Tang pra nós na semana passada?” Ela disse: “foi”. Lá veio a resposta: “peraí, dona, que o telefone já vai”.
A tia Norma ficou com a linha pronta rapidinho… E parece que o bairro permaneceu em silêncio telefônico por muito mais tempo…
No final de 2006, levamos, meu marido, meu filho e eu, a madrinha e o meu tio ao médico na Rua Tabatingüera. Aproveitamos para dar uma volta pelo nosso saudoso bairro do Cambuci… E ela olhava tudo, com atenção e admiração. Fomos subindo a Avenida Lacerda Franco, onde moramos num apartamento, passamos pela Igreja Santa Margarida Maria… E fomos até a casa dela, no Bosque da Saúde. No caminho, numa avenida cheia de motéis, um carro bem à nossa frente deu seta e entrou num deles. Ela rapidinho: “deixa eu ver quem está entrando no motel… deixa ver se eu conheço”… Essa tia Norma…

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