A vida corria mansa lá pelos idos de 1969/1970. Morávamos na Rua Gaspar Fernandes, situada nas colinas históricas da Vila Monumento, numa casa alugada, com um quintal de terra, uma goiabeira e uma mastodôntica seringueira plantada pelo meu avô italiano.
Como era de costume, somente meu pai trabalhava e minha mãe exercia as famosas funções de "prendas do lar". Meu pai dava duro trabalhando como mecânico de máquinas industriais de costura, para nos proporcionar uma vida tranqüila, sem luxo, mas com o mínimo indispensável para a sobrevivência e a felicidade.
Minha vida de garoto de nove anos se resumia a amargar as horas "perdidas" na escola e brincar até me esfalfar no restante do dia. Adorava empinar quadrado, brincar de polícia e ladrão e passar horas pendurado na minha goiabeira no fundo do quintal.
E assim a vida caminhava, em plena ditadura militar, sem sobressaltos ou notícias de violência e criminalidade, tão comuns hoje dia. As crianças tinham permissão de brincar na rua e até irem sozinhas a pé para a escola. Quando havia algum assalto ou outra violência urbana pelas redondezas, o fato era comentado por dias com assombro e surpresa.
Num belo dia, meu pai chegou em casa com um carro novo, na verdade um fusca cor de café com leite, ano 1967, semi-novo, ainda com cheirinho de carro 0km. Que festa! Fomos todos, meu pai, minha mãe e meus três irmãos estrear a novidade, com uma volta pela noite de São Paulo e suas luzes hipnotizantes. Quantas risadas, todo mundo falando ao mesmo tempo e se deliciando com um picolé Kibon no final do passeio.
Meu pai trabalhava o dia inteiro, saía muito cedo é só chegava à noitinha. Eu costumava ficar no portão esperando ele chegar, driblando os chamados de minha mãe para ir tomar banho. Mas, um dia, a rotina mudou. De repente, no meio da manhã, meu pai chegou em casa, branco como cera e reclamando de dor, dizendo:
– Fui assaltado. Levaram o carro!
Desespero, correria, choros convulsivos. Você está bem pai? Levaram o fusca? Como foi isso? Muitas perguntas ao mesmo tempo. Poucas respostas e a constatação de que meu pai necessitava de cuidados médicos.
No dia seguinte, com a poeira mais baixa, a história foi se revelando. Dirigindo-se ao trabalho, meu pai parou num semáforo na subida da Rua do Paraíso quando, do nada, apareceu um indivíduo armado que abriu a porta do fusca e, enfiando o cano da arma em suas costas, o puxou para fora, entrou no carro e saiu acelerando. Situação arrepiante. Assalto com violência, coisa rara à época, sem contar a perda do carro, o bem de maior valor da família.
A partir deste ponto, puxo pela memória para tentar lembrar dos detalhes, coisa difícil após trinta e oito anos. Lembro-me da casa num entra e sai de parentes e dos cochichos entre eles. As ordens expressas de minha mãe para que fossemos brincar lá fora e a figura de meu pai acamado, reclamando de dores nas costas (quebrara três costelas) e de sua sempre insuportável enxaqueca, que se fizera presente como que para piorar a situação.
Mais um dia havia se passado e meu pai continuava na cama, sempre reclamando de dores. Eu estava à frente de casa olhando alguns quadrados no céu quando, de forma ruidosa e abrupta, pára à minha frente uma perua Chevrolet C 14 azul e dois homens enormes saem de dentro dela. O maior deles, um negro com voz de trovão, pergunta pelo nome de meu pai, querendo saber se ele está em casa. Sem responder, corro para dentro para chamar minha mãe, que sai toda assustada e me pede baixinho:
– Vá avisar sua tia Anita!
Minha tia morava a três casas da nossa. Estava preparando o almoço, largou tudo e correu junto comigo para minha casa. Quando lá chegamos, os homens estavam na sala do sobrado, dizendo que o carro tinha sido roubado por "terroristas", mas já havia sido encontrado e que eles precisavam levar meu pai imediatamente para reconhecimento do veículo. Minha mãe, apavorada, dizia que meu pai estava acamado, com muitas dores e que não poderia acompanhá-los. Sem cerimônia e sem lhe dar ouvidos, os dois homens já subiam as escadas rumo ao quarto para pegar meu pai, quando minha tia Anita interveio:
– Vocês têm ordem por escrito para levá-lo para a Delegacia? O Dr. Fleury sabe disso? Ele é meu amigo e nosso vizinho, vou chamá-lo para esclarecer essa situação!
Virando-se para mim, minha tia pede, quase berrando, “corra até o "predinho" no fim da rua e mande chamar o Delegado Fleury com urgência”.
Nem tive tempo de sair, os homenzarrões, ao ouvirem o nome do Fleury, se desculparam e foram embora tão rápido como chegaram. Somente muito tempo depois, pude compreender como esses fatos poderiam ter mudado de forma trágica a história de minha família. Por muito pouco, e graças à presença de espírito e coragem de minha tia Anita, a quem rendo aqui uma homenagem, não perdemos meu pai para os porões da ditadura.
Nunca soubemos ao certo quem roubou o carro de meu pai, que foi devolvido intacto pela polícia alguns dias depois. Se o fusca foi roubado por um "terrorista", alcunha dada a maioria dos opositores do regime de militar ou por um ladrão comum, jamais saberemos. O certo é que além do "terrorismo" de esquerda daquela época, também havia o "terrorismo" de direita, impetrado pelo todo poderoso Delegado do DEOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) Dr. Sergio Paranhos Fleury, para o qual até as forças armadas deviam favor, e cuja mera menção do nome fazia tremer até os mais sórdidos e cruéis torturadores da ditadura militar.
E a Tia Anita sabia muito bem disso. Aliás, ocorreu-me agora que devo lembrar de perguntar a ela se tinha mesmo amizade com o Dr.Fleury!
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