Li outro dia um texto do amigo Lopomo que falava sobre o sumiço dos balcões nas vendas/empórios, motivado pelo surgimento dos supermercados ao estilo self-service. O texto ativou minha memória e me fez retornar aos anos 40/50, quando eu morava, ainda, na Rua Augusta.
Lembrei-me do Armazém do Sr. José, que ficava bem na esquina da Rua Augusta com a Rua Caio Prado, onde hoje está instalado o Hotel Ca’D’Oro. Era um empório de secos, molhados e outras quinquilharias. Ali também se comprava meio litro de leite, 250 gramas de manteiga (embrulhada em papel manteiga), um pedaço de fumo de rolo ou de corda (comprei diversas vezes para meu avô Gido) e a palha para cigarros. E depois, sentado ao lado do meu avô, assistia ele picar diversos pedaços daquele fumo que, depois de picado, era depositado na palma de sua enorme mão e, comprimido pela palma da outra mão, ia se desfazendo, como se ralado fosse, até se tornar um monte de fumo totalmente desfiado.
Terminada essa primeira fase, meu avô pegava uma palha de milho das que eu havia comprado no Seu José e, com o mesmo canivete (afiadíssimo, por sinal) que ele havia picado o fumo, agora passava no pedaço de palha, em gestos contínuos, no sentido de sua textura, para afiná-la e/ou amaciá-la.
Pronto, a fase preparatória do cigarro estava concluída. Então, para terminar o processo de elaboração, passava a palha na língua para umedecê-la, colocava-a entre o vão dos dedos, jogava o fumo raspado para dentro da palha e começava o processo de enrolamento. Depois de devidamente enrolado o cigarro e dobrado nas pontas, com uma fita da mesma palha que havia sido destacada anteriormente, amarrava o cigarro que, assim preparado, estava pronto para ser queimado.
Assisti tantas vezes esse ritual que, quando mais velho, meu avô se valeu dos meus conhecimentos para lhe fazer os últimos cigarrinhos de sua vida. Foi nesse armazém que vendi, para gastar o dinheiro em balas e doces, as garrafas e litros que meu avô armazenara durante anos, de acordo com o que já relatei em outros textos neste site.
Eu, na época, não entendia por que meus pais ou avós não pagavam as compras feitas no armazém. Depois, crescendo, foi que percebi que o dinheiro para pagamento só era entregue ao Sr. José no final do mês, e as compras até então realizadas estavam devidamente anotadas numa caderneta de capa amarela.
Quantas vezes fui tirado das minhas brincadeiras com um chamamento de minha mãe que dizia: “Miguelzinho, vai lá no Seu José e traz meio quilo de feijão roxinho”, ou “Miguelzinho, vai comprar o leite e o pão lá no Seu José”… Eu, ainda que contrariado, saía e ia atender às ordens da Dona Tereza.
Depois, com o advento dos supermercados, quando o primeiro de São Paulo foi instalado na Rua da Consolação, no prédio do antigo Cine Odeon, era uma maravilha acompanhar minha mãe ou minha tia às compras. Mesmo sabendo que me caberia carregar algumas sacolas, eu ia alegre só para poder degustar alguns produtos que eram oferecidos diante das gôndolas. Foi lá que, pela primeira vez, eu provei uma bolacha de água e sal coberta com um produto revolucionário à época, a “margarina vegetal”, que se não me trai a memória, era produzida pela Sanbra.
Mário, viu como é bom a gente ser alertado para avivar a memória? Estas, com certeza, estavam armazenadas lá no imo da minha lembrança.
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