Fevereiro de 1968, bairro do Ipiranga. Eu, com 15 anos, estava radiante, pois tinha conseguido um emprego, meu primeiro emprego.
Trabalharia numa firma localizada na Rua Costa Aguiar ou na Rua Cipriano Barata, não me lembro bem, só sei que era lá no seu começo, perto da Patriotas. O trabalho era bom e ficava perto de casa; para a situação da época, o sonho de consumo de toda jovem na minha idade.
Lá fui eu, primeiro dia de trabalho, marmitinha em punho, um pouco de nervosismo, mas a felicidade superava a insegurança, afinal tudo daria certo, era minha vida profissional começando…
Com as recomendações de minha mãe: – "Pegou guarda-chuva? está levando galocha? Parece que vem chuva forte… Vai com Deus, minha filha.” Fui confiante.
O dia transcorreu normal até que, à tarde, as profecias de minha mãe se concretizaram e a chuva forte chegou. Chegou e não ia embora. Comecei a observar uma certa inquietação dos funcionários mas, como era meu primeiro dia, procurei não ser xereta e não perguntei o que estava acontecendo, só observava.
De repente essa inquietação virou mobilização, correria para colocar verdadeiras comportas nas entradas e, como que num passe de mágica, a água começou a aparecer no quintal da empresa e ia subindo, subindo….
– "Pessoal, o barco dos bombeiros vai chegar em 20 minutos: preparem-se em grupos de 5, como de costume, para serem resgatados. Você, Márcia, que é nova aqui, fique perto das colegas de escritório, que elas já têm experiência." Essas foram as palavras do gerente, nada confortadoras para quem nem conseguia respirar naquele momento, que era o meu caso.
O barco chegou, fui resgatada na terceira viagem, cheguei à terra firme com segurança e, claro, calçando as galochas e com o guarda-chuva em punho.
Agradeci ao soldado do corpo de bombeiros, me despedi do pessoal, pedi demissão ali mesmo para o gerente, que tinha ido na “primeira” viagem do barco, e fui para casa pensando como seria meu próximo emprego.
Uma coisa é certa, poucas pessoas tiveram o privilégio, nessa vida, de aliar ao primeiro dia de vida profissional, um passeio de barco e uma descarga de adrenalina forte, que percorre meu corpo até hoje, além de aprender, na prática, que nem sempre o comandante é o último a deixar o navio.
A primeira enchente em São Paulo a gente nunca esquece.