O Oscar tinha uma lojinha de roupas masculinas na entrada de um prédio na rua Quintino Bocaiuva quase esquina com rua Benjamin Constant. Era também amigo de meu pai e os dois decidiram que estava na hora de eu começar a trabalhar. Fui para lá e logo as pessoas me estressaram. Eles entravam na loja e o Oscar mostrava tudo que tinha e o infeliz saía da loja sem nada comprar. Aí eu entrava em cena. Nélio, dá para você dobrar todas essas malhas e camisas? E eu dobrava e enfiava, dobrava e enfiava nos saquinhos plásticos para guardar. Logo chegava mais um, sem nada para fazer. Quero ver aquela jaqueta que está na vitrine. Agora esta camisa. Você acha que esta camisa cai bem? Fica ótima… e eu ali já no ponto de mandar o cara pras cucuias. Fiquei lá pouco tempo e até pensaram que eu precisava ver o dr. Romeu Fontana, que era o medico da família e tinha consultório no mesmo prédio.
Felizmente o Oscar entendeu minha situação e ele mesmo me mandou para a Ótica Luneta na praça Dom Jose Gaspar, onde seu amigo me empregou como office-boy.
Que diferença! Como era bom ficar na rua. Todos os dias ia nas lojas da Baush Lomb e outras para buscar lentes e armações para óculos e gostava de bater papo com as secretárias. Eu gostava de caminhar pela rua Maria Paula, viaduto Jacareí, viaduto Nove de Julho, atravessar a rua Consolação. A volta para casa era mais interessante, quando o sinal fechava ali na esquina. Vai para a João Mendes? Pode me levar? Muito obrigado.
Hoje em dia nem para criança você pode dar carona, pois o pivete pode tirar um 38 e você vira presunto.
Trabalhei nesse lugar um bom tempo, saí porque a Terezinha Sayão me convidou para trabalhar para ela na Copiadora Carlos Gomes e eu achei muito bom pois ficava a três minutos de casa. Trabalhava na rua entregando cópias e buscando originais para serem copiados. No final do dia ao sair do trabalho, cruzava a rua e entrava no Madureza Sta. Inês. As amizades duram até hoje e relembramos juntos quando o João Batista, esposo da Terezinha, entrou no escritório com um barbeiro e anunciou que o cara iria cortar o cabelo de todos. Parecíamos bichos com aquele cabelo mas era a moda.
Quando o barbeiro saiu depois de um tempão não existia mais Beatles, Roberto Carlos, Roni Von, e éramos finalmente, nós mesmos. Todos pálidos, com orelhas bem brancas, pois o sol não batia ali por muito tempo.
Numa dessas saídas como office-boy conheci a Claudette num escritório de engenharia, que me apresentou ao Zsolt (Marplan), que era seu namorado. Ele me acolheu como irmão e me deu uma grande oportunidade. Agradeço pela chance de começar uma nova vida.