Certo dia, no caminho para a escola, perguntei à minha amiga Lúcia, de súbito, quais aulas ela teria naquele dia. Olhando em seu caderno o horário de aulas, respondeu:<br>- “Português, geografia, educação física, história e canto”.<br><br>Achei ótimo, pois também tinha cinco aulas naquele dia. Então fiz a pergunta que deixou Lucia de boca aberta:<br>- “Você já cabulou aula?” – Lucia me olhou espantada.<br>- “Não sei o motivo do espanto, todo mundo fez isso pelo menos uma vez na vida”.<br><br>Passado o susto, Lucia me perguntou se por acaso eu já cabulara aula e como respondi que tudo sempre tem uma primeira vez, ela ficou preocupada. Eu, no entanto, fui logo afirmando:<br>- “Hoje será a nossa “Avant Premier””.<br> <br>Lucia achou absurdo:<br>- “Cabular para quê?”.<br>- “Sei lá!”.<br><br>Achava que no bairro tinha uma porção de coisas para se ver e divertir em uma tarde livre. Lucia temerosa dizia que não ia dar certo, mas insisti. A minha primeira idéia foi pegar um ônibus e durante o percurso resolver o que fazer.<br><br>Subimos no primeiro ônibus que passou e mal rodamos a catraca, avistamos o professor de Frances. Lucia ficou apavorada, mas pedi calma, nada de pânico, talvez ele nem nos visse; mas ele nos viu sim, e perguntou para onde estávamos indo.<br>- “Não estão pensando em cabular as aulas, estão?”.<br><br>Teria o mestre bola de cristal, ou seria vidente e lia pensamentos, pensei preocupada, mas rapidamente respondi que estávamos indo para o colégio:<br>- “Ah! Então descem comigo no próximo ponto”.<br> <br>Respondi que sim e descemos com ele. Assim que o professor se afastou, comentei com Lucia que o pior foi ter gasto dinheiro à toa com a passagem do ônibus. Lucia achou melhor desistir da tal Avant Premier e assistir as aulas, mas eu não, não iria desistir tão facilmente.<br><br>Saímos das imediações do colégio e pensamos no que iríamos fazer. Cinema seria uma boa ideia, embora eu adorasse e Lucia não. Mas com que dinheiro? Além do usado na condução, só me restara o suficiente para pagar o ônibus da volta. Lucia tinha um pouco mais, porém não daria para duas meias entradas. Pensei, pensei, e tive outra ideia brilhante. Perguntei à Lucia se estava com o caderno de cartografia, diante de sua afirmativa e antes que ela pudesse esboçar qualquer reação, puxei o caderno das mãos dela, joguei no chão e pisei nele.<br><br>Lucia ficou furiosa, quase chorou dizendo que eu havia estragado o caderno e os mapas, mas eu a acalmei dizendo que só sujara a capa, mas folheando o caderno vi que o mapa do Brasil estava sujo também. Pedi desculpas e prometi refazê-lo.<br><br>Depois do ato insano, levei minha amiga até a banca de jornal que eu era freguesa e com a cara mais ingênua do mundo, expliquei o problema. Disse à senhora da banca, que derrubara o caderno em uma valeta sujando sua capa. Precisava entregá-lo na segunda aula e o professor não o receberia naquelas condições. Perguntei se ela me emprestaria o dinheiro para comprar papel e encapá-lo novamente.<br><br>É lógico que ela me emprestou, e de posse do dinheiro necessário para completar as entradas, lá fomos nós ao cine Cruzeiro para assistir ¨O ente querido¨. O filme era em preto e branco e o tema muito tétrico, por isso saímos antes da metade do filme.<br><br>Caminhamos sem destino e reclamamos mais uma vez o desperdício do dinheiro, primeiro com a condução, depois com o cinema, se tivéssemos pensado melhor poderíamos ter ido a uma sorveteria e tomado um super sorvete, mas agora Inês é morta. Sobraram somente uns trocados e não dava para nada. Estávamos sem dinheiro e com fome.<br><br>Lucia lembrou que tinha um lanchinho em sua frasqueira, sanduíche de pão de forma com queijo e presunto e um tabletinho de chocolate. Compramos uma coca-cola com os trocadinhos e rachamos o lanche, sentadas debaixo de uma árvore. Retornamos, e ao passar pela igreja Nossa Senhora da Saúde, resolvemos entrar, visitamos os altares um por um e oramos.<br><br>Saímos da igreja e Lucia perguntou o que faríamos então. Olhei o relógio e vi que era fim do período de aulas. <br>- “Vamos para casa” – afirmei desanimada.<br>- “Programão hein amiga! Seria bem melhor termos assistido às aulas, mas queríamos saber como era um dia de gazeta e agora sabemos. Será que nossos colegas sabem aproveitar melhor do que nós?” <br>- “Talvez, mas no nosso caso foi um dia inútil e sem graça”.<br><br>Voltei para casa com a consciência pesada, mas tinha certeza que essa história não se repetiria. No dia seguinte, acordei cedo, encapei o caderno de Cartografia, refiz o mapa estragado com muito capricho e paguei a dona da banca de jornal, me senti mais leve.<br><br>Fui para a escola bem antes do horário e encontrei novamente o professor de francês.<br>- “Bonjour mademoiselle, comment allez vous?” <br>-“Très bien, professeur Lima, très bien”.<br><br>Ele entrou na sala dos professores e eu fui ao encontro de minhas colegas de classe.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>