Vivo cansado da televisão, de jornais, revistas semanais e a tudo que cheire notícia. Virei um misantropo das atualidades. Dizem que em São Paulo teve um dos melhores réveillons do Brasil, mesmo debaixo da garoa eterna. Abomino o tratado de Kioto e suas chaminés capitalistas, o casamento homossexual baseado nos moldes heterossexuais, a eterna luta entre palestinos e judeus.
Tudo me cansa, vira um filme em preto e branco reprisado "n" vezes nas madrugadas da sessão coruja. A Mulher Melancia e seus romances, já são figuras tarimbadas de tablóides sensacionalistas e “paparazzis” entediados. O Iraque virou um cemitério sem almas, sem futuro, sem jeito. Nos boletins meteorológicos o tempo é o mesmo: frio no sul com chuvas e mortes e sol no nordeste com picos de 40 graus.
Os políticos se engalfinham sempre na luta de seus interesses, pensam na próxima eleição. Os filmes americanos, com toda a sua cultura embutida a tiracolo, enchem as salas dos multiplex e viram logo depois CDs piratas do camelô. As invasões de terras continuam, os grileiros e suas presas fáceis sucumbem a um Brasil sem reforma agrária. Nas novelas reina uma promiscuidade e os índices do Ibope irão às alturas com a estréia do BBB12.
As louras "Maria chuteiras" correm atrás de jogadores nascidos em favelas. O futebol regional recomeça, o da Europa recruta mais um brasileiro. Na Rússia o inverno continua rigoroso e a Chechênia ainda respira sufocada. A Igreja católica cheia de escândalos permanece em pé e as evangélicas roem o seu calcanhar. A Amazônia é devastada, o gelo antártico derrete, as baleias morrem encalhadas e mais uma criança nesse momento morre de fome, violência ou em decorrência de complicações por conta da AIDS. Descobrem uma nova estrela, um furacão ainda sem nome nasce nas Bahamas e atingirá com certeza a costa da Flórida.
Um novo modelo de celular vira sucesso de vendas, não precisamos de fios para a internet cheia de coisas que desagradam crianças. Paulo Coelho lança mais um péssimo livro, o carnaval de Salvador entra para o Guiness Book, uma aldeia de índios já é batizada pelos entorpecentes. Sinto-me acuado, impenetrável nessa rede de notícias.
Para que servem realmente as células tronco? Devemos competir com a soja transgênica americana? Quantos aviões a Embraer já vendeu pelo mundo? A Coréia do Norte tem ou não a bomba atômica? O que a alta dos juros tem a ver com o meu desassossego? Quero parar de ler essas tolas notícias e partir para ler bulas de remédio e manter o meu vício intacto, o cérebro em exercício.
Já não sinto pavor das balas perdidas nos morros no Rio, do PCC em São Paulo, nem do turista alemão assaltado. Manuais de alta ajuda que vendem a felicidade pipocam nas bancas, nos ônibus coletivos, enquanto nas farmácias cresce a venda de antidepressivos nada nocivos. Os carregamentos de drogas são notícia fria, sem graça, um mero meio de vida.
Goiânia continua exportando mulheres para o mundo, as filas do SUS fazem parte da nossa rotina. Fico na expectativa desprezível de um novo ataque terrorista, de um novo tsunami, de um novo imposto bancário.
Quero poder desligar desse mundo… Ando cansado! Gostaria de ser um big brother enclausurado dessa realidade efêmera, ávida por novas notícias, fatos… Queria me isolar, ficar protegido em uma casa com câmeras queimadas, banhar numa piscina às seis da manhã… E depois dormir dois dias inteiros.
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