Violento incêndio há poucos dias destruiu parte do Teatro Cultura Artística, localizado na Rua Nestor Pestana e inaugurado em 1950; importante espaço cultural de São Paulo com duas imensas e magníficas salas de espetáculos.
Lembro-me da primeira vez que entrei no esplêndido teatro: foi para participar de um ciclo de palestras sobre literatura brasileira. Lá estiveram falando sobre os grandes escritores brasileiros os conferencistas Edgar Cavalheiro, Austregésilo de Athayde, Pedro Calmon e outros. Assisti, em seu palco, muitas peças teatrais e recitais de música erudita, patrocinadas pela Juventude Musical Brasileira, criada pelo maestro Eleazar de Carvalho.
Um evento, em particular, ficou em minha lembrança. Morava no interior e li nos jornais que a peça Otelo, de Shakespeare, seria encenada no Cultura. A produção era de Antonio Fagundes. Não tive dúvidas. Depois de muitas horas de viagem, cheguei de manhã em São Paulo e à noite corri para o teatro – já havia comprado a poltrona.
Foi a maior decepção. O diretor, cujo nome não merece ser lembrado, transformou a tragédia do mouro de Veneza em infeliz comédia. A história de ciúme, inveja e traição foi totalmente deformada. Otelo, Desdêmona, Iago e os outros personagens eram motivos de riso. Tipo Romeu e Julieta com Ronald Golias e Hebe Camargo.
Shakespeare, naturalmente, não deve ter gostado nada da brincadeira. Desde meados do século XVII, mais ou menos, a peça, encenada milhares de vezes em todo o mundo, jamais fora mutilada como no Brasil. Foi um fracasso e parece que nunca mais aquela caricatura de Otelo foi reencenada nos palcos brasileiros.
Depois do vexame, fui até o restaurante Famiglia Mancini, ali perto, na Rua Avanhandava, para jantar. Após a refeição, apresentei-me ao proprietário da cantina como Mancini, e chegamos à conclusão que não havia parentesco entre nós. Pedi-lhe, então um daqueles belos e atraentes aventais que os garçons usavam. Anotou meu endereço e garantiu que o mandaria pelo correio. Não aceitou pagamento. Dancei, pensei comigo.
Voltei para o hotel e, no dia seguinte, embarquei para minha longínqua cidade – um pouco acabrunhado pelo esforço despendido para ver um Shakespeare assassinado. A viagem valeu pelo lindo avental que recebi pelo correio uma semana depois.
Grazie!
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