Tambaú, milagres e estelionatos

Em 1954 apareceu nos jornais que, na cidade de Tambaú, no estado de São Paulo, tinha um padre fazendo milagres. Pronto, a notícia correu todo o país, e esta cidade, até então escondida, passou a ser conhecida no Brasil inteiro.<br><br>Mas as manchetes dos jornais apareciam principalmente no jornal que gostava de manchetes exageradas, como o jornal A Hora, um tablóide que mostrava muitos crimes e roubos e se notabilizava por notícias policiais.<br><br>O que realmente acontecia era que, através da benção do padre Donizete, os “milagres” aconteciam por intercessão de Nossa Senhora Aparecida. Muita gente passou a ir nessa cidade em busca de um milagre qualquer.<br><br>Até minha mãe foi num final de semana e disse que a Via Anhanguera tinha um trânsito lento, em que só apareciam as lanternas vermelhas das traseiras dos carros que seguiam lentamente em fila.<br> <br>Na cidade muita gente fazia questão de dizer que tinha ido de muletas e estava voltando sem elas. A igreja já era um depósito de muletas e também de cadeiras de rodas, que ficavam como comprovante de milagres realizados. Os mais céticos diziam que aquilo era pura mentira para divulgar a cidade e fazer com que o comércio viesse a faturar.<br><br>Mas, as aparições da santa foram além da cidade de Tambaú e passaram para vários outros locais do estado de São Paulo.<br><br>Aqui na capital os jornais diziam que em vários bairros se tinha notícia de que a imagem da Santa aparecia, em um vitral ou até reflexo num espelho ou numa bacia de água.<br><br>Em todos os locais onde a suposta imagem estava encravada tinha uma cesta de vime, e até mesmo uma bacia de alumínio, para que as pessoas colocassem suas ofertas.<br><br>Na Vila Olímpia, Rua Arminda, próximo à Avenida Santo Amaro, uma mulher de origem portuguesa, conhecida por benzer as pessoas dizendo ter esse dom de Deus, mandou espalhar a notícia que em sua casa também a imagem de Nossa Senhora Aparecida estava presente.<br><br>Como curioso fui lá e, honesta e sinceramente, não consegui ver a tal imagem, por mais que as pessoas fanáticas me apontassem não conseguia ver. Não sei se estava na minha Fé de menos ou se estava com problema de vista naquele momento.<br><br>Só sei que vi que a meu lado estava a tal bacia, quase tropecei, e nela já tinha umas notas de um, dois e cinco cruzeiros, e também moedas.<br><br>O comércio ganhou muito dinheiro com a imagem da santa, que estava estampada em lenços de seda, canecas, capas de cadernos e também em discos 78 rotações com musicas a respeito desse “fenômeno”.<br><br>Em se falando de música, me lembro que a dupla coração do Brasil, Tonico e Tinoco, fez uma composição sobre o assunto.<br><br>O tema em questão “era de um casal rico que um deles estava numa cadeira de rodas, e na cidade de Tambaú, com uma fé inabalável, um deles ficou sarado, se livrando da cadeira de rodas. Antes de voltar para a capital eles ofereceram uma boa quantia em dinheiro para o padre, que não aceitou, dizendo ao casal: <br><br>– Isso não é coisa minha, é coisa de Deus, portando não recebo dinheiro.<br><br>Então sugeriu ao casal que, no caminho de volta, eles fossem encontrar uma pessoa pobre, e que doassem aquele dinheiro a ela. Realmente, num determinado setor da estrada, o casal viu uma pessoa pobre. E como era uma negrinha, eles acharam que aquele dinheiro era muita coisa. Então deu um trocado e foram embora. Mas quando chegaram em casa, quem estava na cadeira de rodas voltou a ter o problema, e retornou à igreja dizendo ao padre.<br><br>Ele perguntou ao casal se tinham dado o dinheiro para uma pessoa pobre. Eles disseram que sim, encontram uma mulher de cor negra e não deram aquela quantia e sim um trocado. No que ficaram sabendo que aquela negra que eles encontraram era Nossa Senhora Aparecida, o disco da dupla vendeu muito".<br><br>Mas a coisa não parou por aí. Teve político que também usou o padre Donizete como puxador de votos. O radialista Pedro Geraldo Costa, que tinha o programa da Ave Maria na PRG-9, Rádio Nacional de São Paulo, todos os dias às seis horas da tarde, também relacionou o padre Donizete e a Santa para sua futura campanha política. Ele que já tinha a farmácia do povo na Rua da Consolação, que fornecia remédios de graça para os pobres.<br><br>Certo dia, o padre Donizete compareceu em seu programa, deu a benção aos ouvintes. Essa benção foi gravada e todos os dias aquela fita era tocada, momento em que Pedro pedia para que os ouvintes colocassem um copo de água em cima do rádio, que se tornava benta depois da benção.<br><br>Na minha casa, naquele rádio Booadcast grande, sempre tinha um copo de água que minha mãe colocava. Como o fundo do copo estava molhado, a marca ficou para sempre, nunca mais saiu.<br><br>Em 1955 Pedro Geraldo Costa, que era amigo do meu pai, foi em casa e pediu para ele deixar eu distribuir suas cédulas, na eleição geral que ia eleger deputados e senadores. Eleição que elegeu o presidente Juscelino Kubitschek.<br><br>O local escolhido foi a frente do Grupo Escolar Martin Francisco, Rua Domingos Fernandes. Vila Nova Conceição. Eu ia a sua casa, Rua Maria Antonia, na Consolação, buscar material de campanha, os chamados santinhos, onde estava também a imagem de Nossa Senhora Aparecida. E naquele 1955, eu, aos dezesseis anos de idade, fazia o mesmo que fiz em 1950 na campanha de Getulio Vargas, em frente do Grupo Escolar Aristides de Castro, na Rua Joaquim Floriano, Itaim Bibi.<br><br>Pedro Geraldo Costa usou a imagem de Nossa Senhora o quanto quis, e nunca perdeu uma eleição para vereador ou deputado estadual.<br><br>Quando ele foi candidato a prefeito da capital de São Paulo em 1965, Nossa Senhora Aparecida também “estava ao seu lado” na campanha. E sua presença, mesmo invisível, era tão grande que todos os que passavam pela Praça da República só olhavam para a faixa dele. Isso porque só na faixa dele tinha muitos passarinhos. Nas outras não. Isso insinuava que os pássaros estavam lá por intercessão de Nossa Senhora. É que o candidato colocou na base da faixa uma calha, onde estava um punhado de alpiste, o que fazia o comparecimento de todos os pássaros que habitavam a praça.<br><br>Só que nessa eleição, Faria Lima foi mais forte, e ele, Pedro Geraldo Costa, perdeu e ficou muito deprimido, tanto assim que, por uma semana, sua filha foi quem rezou a Ave Maria na hora do programa. Quando a imagem de Nossa Senhora já não estava mais em uso, ele trouxe do Egito a Cruz de Cedro.<br><br>Pedro Geraldo já é falecido, e deixou muita saudade pela sua astúcia como radialista, publicitário e político.<br><br>e-mail do autor: [email protected]