Susto no túnel do HC

Trabalhei no setor de enfermagem da Clínica de Neurologia do Hospital das Clínicas da USP por oito anos. Foram anos de aprendizado e de muito trabalho, na maioria das vezes de um trabalho estafante, emocionante, doloroso. Conheci grandes figurões da medicina brasileira nos dias de hoje, dando seus primeiros passos na neuroclínica, na neurocirurgia.

Trabalhei com excepcionais profissionais da Enfermagem, desde o pessoal de nível universitário até o mais humilde Atendente de Enfermagem. Aliás, quero aqui render minha homenagem a meus colegas de equipe da ala norte, o André, o Thiago, o Ditão, a Cida, a Zezé e ao Fernando que fazia dupla comigo.

Éramos poucos para cuidar de 40 pacientes da ala, totalmente dependentes e, por incrível que possa parecer (frase clichê!), o trabalho fluía. Talvez seja muita empáfia de minha parte, sei lá, mas hoje não se formam mais profissionais como eles e modestamente me incluo nesse grupo. Aprendi tudo o que eu sei e pratiquei em minha carreira com esses grandes amigos e irmãos…

Bem, prestada minha homenagem a meus colegas, vamos ao que interessa. Um domingo, no intervalo para o almoço, estávamos no "Pátio dos Milagres" jogando conversa fora (área com bancos para descanso que ficava, ou fica, entre o prédio da Ortopedia e o Instituto Central) quando um dos colegas mais antigos contou uma história envolvendo o Ditão.

Após o término do estágio de admissão, o Ditão fora designado para a neuro… Era seu primeiro plantão à noite e, como ele não tinha sido "batizado" ainda, resolveram aprontar uma com ele! Pelo que eu soube na ocasião ele tinha entre 18 a 19 anos de idade, um garotão no verdadeiro sentido da palavra. Com quase 1,90m de altura, músculos estourando por todo o corpo.

O Ditão era uma espécie de Schwazenneger negro… Naquela noite uma criança da neuropediatria entrara em óbito e seu corpinho, após os trâmites legais, deveria ser encaminhado para o necrotério da Faculdade de Medicina. O transporte dos cadáveres, carcaças, era feito através de um túnel que partia da radiologia, passava sob a Av. Dr. Enéas e terminava nos porões da Faculdade.

Um lance de escadas levava ao térreo onde ficavam grandes salões frigoríficos que guardavam as carcaças, dezenas delas, em macas cobertas por lençóis e um corredor desembocava no anfiteatro onde eram praticadas as necropsias. Os corpos subiam para os frigoríficos em um elevador que parava em frente às portas das geladeiras. O percurso era, para dizer pouco, apavorante.

De espaço em espaço, velas de todas as cores, acesas pelos funcionários praticantes de umbanda ou do candomblé. O percurso cheirava “FISICAMENTE”, à morte. O túnel não tinha iluminação e além do mais tinha uma grade de ferro bem no meio de sua extensão. Presos que sofreram tortura por parte da ditadura fugiam através do túnel, daí a razão da grade, diziam…, mas, voltemos ao Ditão.

Após orientação, a carcaça do nenê foi envolvida em um lençolzinho e toca o Ditão, sozinho, para fazer o percurso do terror, às duas da madrugada. Os funcionários da Faculdade que eram responsáveis pela recepção das carcaças à noite, simplesmente desapareciam quando ouviam a grade se abrir, de maneira que todo o serviço era feito pelo nosso pessoal.

Pelo que fiquei sabendo o Ditão fez tudo certinho, e muito rapidamente, diga-se de passagem. Tudo terminado, repetir o caminho, voltar para a Neuro. O Ditão desceu as escadas e entrou no túnel… De repente, de um canto mais escuro, sai um corpo envolto em um lençol, aos gritos:

– Roubaram meu caixão, Roubaram meu caixão! Correndo, flutuando em direção ao atendente apavorado. Dizem que o Ditão deu tanta bordoada que jogou o "fantasma" contra as paredes do túnel. Foi uma carnificina! Os outros funcionários da Faculdade correram em socorro do colega e também entraram no cacete.

Finalmente o Ditão conseguiu abrir a grade e correu para a radiologia… Chegou na neuro apavorado: – "Pessoal, me ajudem, acho que matei alguém lá no túnel… Como é que terminou a história? Ficou por isso mesmo, oras! A turma do necrotério continuou assustando os novatos e os mais temerosos.

E o Ditão? Bem, ninguém da Faculdade nunca mais mexeu com ele e até passaram a respeitá-lo, que ninguém era bobo: – Boa noite, "seu" Benedito… Deixa a carcaça aí que nós cuidamos não se preocupe… Quer tomar uma cervejinha gelada, um guaraná? Espera um pouquinho que eu vou pegar na geladeira!…

Dia desses encontrei o Ditão no sacolão da Vila Sônia. Continúa aquele gigantão de ébano, apavorantemente forte. Não quis fazer os cursos que o HC oferece. Hoje trabalha na gasoterapia, empurrando aqueles enormes tambores de oxigênio ou de ar comprimido, instalando os "birds" que mantém os pacientes graves respirando, infundindo ar em seus pulmões.

Disse-me que falta pouco para se aposentar, mas se puder, quer continuar trabalhando… Ele disse: -"Não sei fazer outra coisa. O que é que eu vou fazer da vida?" – Eu não sei Ditão – respondi. – Eu "to" na mesma situação!

Meu abraço para os Ditões de todo o mundo. Rezem por nós!

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