Sumaré e a molecada que amava a TV Tupi

No início dos anos 60 existiam pouquíssimas emissoras de televisão em São Paulo, comparadas às dezenas que conhecemos hoje, tanto via TV aberta quanto por assinatura. A programação era em preto & branco, os receptores pareciam caixotes, com válvulas que aqueciam demais, as antenas não eram lá grande coisa, o que fazia com que a recepção de som e imagem variasse como o tempo de São Paulo.

As grandes rivais da época eram a Tupi e a Excelsior. Eu tive a felicidade de passar os bons anos da minha infância ali no Sumaré. Ou melhor, nos Altos do Sumaré, assistindo a TV Tupi em casa e pela janela do meu quarto – aquele prédio moderno, estiloso até hoje, símbolo de um império na época. Símbolo de um reino, de um conto de fadas, com heróis, mocinhos, princesas, aventuras e magia que povoou meus dias, minhas brincadeiras de rua, minha imaginação de menino.

Morávamos na Rua Dois – hoje Rua Prof. Paulino Longo -, uma travessa da Plínio de Morais, a alguns quarteirões da sede da TV Tupi.

O que hoje seria a galera da rua, na época era a nossa turminha: eu, meu irmão mais novo, o Ernani e o Dudu, filhos da D. Noêmia. Também o Renê e a Ione, filhos do Seu Jorge e da D. Ingrid, o trio Robernise, Joanise e Denis, mais o Binho, o neguinho David, filho de uma cozinheira de mão-cheia da vizinhança, o Daniel, o Paulo Carioca e a Silvia, filha da Lolita e do Ayrton Rodrigues.

Se algum roteirista da Tupi tivesse conhecido e convivido com aquela galera, sem dúvida teria criado personagens mais cativantes do que aqueles que a TV Record havia lançado como sendo A Turma do Sete.

Numa época em que crianças nem sonhavam com computadores, internet, videogames, PlayStation, celulares, câmeras digitais ou violência, brincar era algo tão simples quanto respirar. E naquele Sumaré que virava Hollywood graças aos estúdios da Tupi, respirar era seguro e ainda trazia aromas de mato e terra molhada.

Nossa rua nascia como primeira travessa da Plínio de Morais – que por sua vez nascia na Prof. Alfonso Bovero – e terminava logo depois da Rua Três – depois, Rua Maria Vidal. Terminava num barrancão, coberto de mato, cheio de pés de mamona e de vagalumes à noite. Essa era a nossa floresta. A nossa mata particular, propriedade da turma da Rua Dois. Tomamos posse por conta própria dessas terras virgens de construções, abundantes de mato, tatus-bola, formigas, pardais.

Hoje, essa "mata infanto-nativa" deu lugar à Rua Varginha, que desemboca na Avenida Sumaré – na época, uma promessa de políticos que tardou a virar realidade.

Nesse território formado por essas ruas, brincávamos de "jogar bafo", tentando conquistar figurinhas carimbadas dos jogadores da Copa de 62, no Chile. Ou pegávamos micose nas unhas das mãos, de tanto jogar bolinha de gude em frente à casa do Walter Foster, na Plínio de Morais, ainda com calçada de terra batida.

O Sumaré era um bairro-cidade-do-interior, se esquecêssemos o charme da Tupi encravado no seu topo. Na nossa rua, jogávamos taco (um abrasileiramento do baseball americano, acho eu), andávamos de bicicleta, de patins, fazíamos piquenique nos terrenos baldios das redondezas. Escalávamos os rochedos imaginários do barranco da Rua Vargem do Cedro.

Época em que não tínhamos babás, vigias, seguranças nos vigiando. Não havia o que vigiar. Tudo era tão seguro. Brigas só entre a molecada.

Dos ares da Tupi veio a inspiração para que montássemos um espetáculo itinerante de teatro, que era exibido nos aniversários da nossa galera. Eu era o roteirista, diretor e ator dessa aventura artística, que eu sonhava um dia ser encenada e transmitida pelos estúdios da TV Tupi. Esses exercícios de arte faziam com que nos sentíssemos parte do elenco daquela fábrica de sonhos do nosso bairro. Onde o Rin-Tin-Tin poderia surgir a qualquer momento, onde minha mãe poderia ser vista voltando da feira da Rua Bruxelas papeando sorridente com a Márcia Real, a Laura Cardoso…

Tempos de mamonas, vagalumes, astros e estrelas, crianças mais ingênuas que as de agora, São Paulo mais humana.

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