Sufoco no baile

Lendo o texto da Maria Thereza, lembrei-me de algo que ocorreu comigo por volta de 1972. Era estudante, não estava trabalhando no momento e havia começado a namorar um amigo do namorado da minha irmã. Suas condições financeiras eram muito superiores às minhas, sem dúvida, mas ele não era esnobe e me deixava à vontade.<br><br>Certa vez, ele me convidou para ir a um baile ou festa beneficente, não lembro bem, que aconteceria no salão da "Igreja Nova da Penha", como chamávamos. A igreja estava em fase de construção e havia muito material pelo chão, à entrada do salão. Não reparei em uns ferros (pareciam trilhos de trem) espalhados na entrada e tropecei nos benditos, rasgando meu sapato esquerdo na lateral, de maneira tal que ficou difícil de caminhar. Não bastando, entrou um cisco em meu olho (esquerdo) e teimou em ficar ali instalado durante toda a noite. <br><br>Eu já estava desesperada! Meu namorado levou-me para casa e combinamos de sair no dia seguinte. Fui dormir com muitas preocupações, que iam além do cisco teimoso que só saiu no dia seguinte e que me rendeu um grande inchaço no olho! Eu não sabia como faria para dizer a ele, sem morrer de vergonha, que não poderíamos sair, pois eu não tinha outro par de sapatos decentes. <br><br>Hoje reconheço que foi por orgulho e um orgulho bobo, idiota! Era só lhe dizer e sugerir que ficássemos em casa, não? Mas isso nem me passou pela cabeça! A vergonha (ou orgulho) era tanta que pedi ao meu irmão que, na hora combinada ele recebesse o rapaz e dissesse que eu não poderia sair, pois estava doente. <br><br>E assim foi feito, Só que ele era meio desconfiado e ciumento e acho que não acreditou. Meu irmão disse que ele andava para cima e para baixo na nossa rua, como se esperasse uma saída minha. Se fosse hoje, no domingo iria a um shopping e compraria outro sapato, resolvendo o problema. Mas naquela época, não havia comércio aos domingos.<br><br>Logo depois disso, eu resolvi terminar o namoro. Depois de um tempo transferi-me para o Estadual da Penha e ele estudava lá. Por bastante tempo seus amigos me vigiavam e lhe passavam relatório sobre o que eu fazia ou deixava de fazer. Era até engraçado!<br><br>Naquela época tudo era difícil, eu ainda era menor de idade, minha mãe trabalhava, mas não tinha muitas condições de suprir todas as nossas necessidades, então algumas coisas eram sacrificadas.<br><br>Apesar do apuro, do sufoco (cheguei a colocar roupas da mamãe para sair à procura de emprego!), a gente era feliz.<br><br>Considero que todas as nossas experiências ocorrem para ajudar-nos a crescer, a evoluir, fazendo com que deixemos de agir por orgulho ou preconceito. <br><br>A vida sempre nos dá belas (e às vezes amargas) lições; só precisamos estar atentos para entendê-las.<br><br><br>E-mail: [email protected]