Freguesia de Nossa Senhora do Ó vista pela fé

Este é um relato meramente espiritual sobre a Expectação de Nossa Senhora do Ó. Na etimologia, o nome Freguesia vem do latim Filli Eclesiae e significa filhos da igreja. Esta honraria foi a única que manteve no nome oficial, dentre os vários bairros paulistanos, e que foi concedida como uma forma de divisão do Episcopado, aos moradores da época, facilitando assim a vida de todos os fiéis de bairros longínquos que não mais precisariam se deslocar por horas intermináveis para receberem o amparo religioso.<br><br>Os bairros como o Brás, a Penha e Santo Amaro, aos poucos, foram deixando de usar os nomes de "Freguesia" e a Freguesia de Nossa Senhora do Ó passou a ser chamada simplesmente de Freguesia do Ó. Nossa Senhora do Ó era a santa da devoção da esposa e do Bandeirante Manoel Preto, proprietários daquelas terras. Já o nome atualmente correto é Nossa Senhora da Expectação ou Esperança. A referência à Nossa Senhora do Ó é uma devoção mariana, surgida em Toledo, na Espanha, remontando ao X Concílio presidido pelo arcebispo Santo Eugênio, quando se estipulou que a festa da Anunciação fosse transferida para 18 de Dezembro próximo da celebração do Natal, sendo denominada com o título de Expectação do Parto da Beatíssima Virgem Maria.<br><br>O invocativo Ó faz parte das sete antífonas cantadas durante a novena, como preparação para a festa do Natal. E porque da Expectação ou Esperança? Se analisarmos a frase latina “Ecce concipies in utero et panes Filium” nós transportamos a figura mais perfeita e mais capaz de tudo, que inventou a natureza e conhece a geometria que é o círculo, o símbolo do globo terrestre, das esferas celeste, dos astros e todas as máquinas do universo, que por isso se chama orbe. A figura do círculo traduz na “Ecce concipies in utero et paries Fillium”. Nove meses teve dentro de si no círculo, a presença de Deus. Assim, já foi exposto, o círculo do útero virginal foi um "O", que compreendeu o aparecimento de Cristo Nosso Senhor Jesus.<br><br>São João, na primeira visão do seu Apocalipse, disse: "Ego sum alpha et omega principium et finis": “Eu sou o Alfa e o Ômega porque sou o princípio e o fim de tudo”, o principio enquanto Criador do mundo e o fim enquanto reparador dele. Alfa e Ômega são a primeira e a última letra do alfabeto grego. Portanto, os desejos da Virgem Santíssima da Expectação ou da Esperança é que todos eram Óh. Oh! Quando chegará aquele dia! Oh! Quando chegará aquela ditosa hora, em que veja com meus próprios olhos e em meus braços ao Filho de Deus e meu criador! Oh! Quando? Oh! Quando? Oh! Quando? Esses desejos da Senhora do Ó começaram na conceição e acabaram no parto.<br><br>Desejos que tiveram começo e fim. Como podia igualar a duração de uma eternidade ao espaço que foi somente de nove meses? Assim como trocou o Eva por Ave assim trocou também, “et” em "o" e reduzidos os nove meses ao circulo perfeito deste "o" não é muito, que fossem eternos. A tão continuada e repetitiva antífona cantada no "Ó" na Senhora acabou de cerrar o círculo da sua eternidade e limitação do tempo de nove meses que é da expectação. Nem é contra a extensão natural da eternidade a limitação do tempo de nove meses porque não devemos conceder menos capacidade do coração da Senhora do Ó que a do ventre santíssimo. <br><br>A maior capacidade criou a natureza e a do coração humano e se o ventre de Maria foi capaz de encerrar o imenso amor por Deus, porque não seria capaz seu coração de estreitar o eterno e o temporal tão opostos como a eternidade e o tempo? Naquela famosa carroça que descreve o profeta Ezequiel, na qual ia ou era levado a Deus, o artifício das rodas era admirável porque dentro de uma roda estava ou se revolvia outra roda. E que duas rodas eram estas? Uma era a roda do tempo e a outra da eternidade. A roda do tempo é pequena e breve; a roda da eternidade é grandíssima e amplíssima e, contudo, a roda do tempo encerra e resolve dentro de si; já a roda da eternidade, porque, qual for a vida temporal de cada um, tal será a eterna, diz o santo. <br><br>Dessa forma, o título de Expectação do Parto da Beatíssima Virgem Maria pelo exclamativo nas antífonas cantadas pelos fiéis em “Oh!” fez surgir, no coração do povo da região, a grande devoção pela Virgem Nossa Senhora da Expectação ou da Esperança. Portanto, o círculo tem uma representação significativa na configuração da imagem de Nossa Senhora da Expectação ou da Esperança ou, simplesmente, Nossa Senhora do "Ó" que empresta o seu nome ao mais antigo bairro de São Paulo colocado bem no alto de uma colina, próximo à Lapa, Água Branca, Pirituba e Jaraguá. <br><br>Este é um pequeno esboço do bairro visto através da fé e da tradição, fundamentada no círculo que representa o útero materno. Na iconografia, a imagem de Nossa Senhora do Ó sempre apresenta a mão esquerda espalmada sobre o ventre avantajado, em fase final de gravidez. A mão direita pode também aparecer em simetria à outra levantada.<br><br>Encontram-se, ainda, imagens com esta mão segurando um livro aberto ou também uma fonte, ambos significando a fonte da vida. Em Portugal essas imagens costumam ser de pedra e no Brasil de madeira ou argila. Esta, portanto, é uma referência ao bairro de caráter religioso, baseado na figura do círculo que representa a figura de Jesus no ventre materno. Daí, o culto à imagem da Virgem Senhora da Expectação do parto e do surgimento do belo e simpático bairro da Freguesia de Nossa Senhora do Ó.<br><br><br>E-mail: [email protected]